Conta apresentada por Dilma Rousseff não inclui gastos para reduzir desmatamento no cerrado. Parcela menos cara do plano é a que envolve diminuir o desmate na Amazônia; peso maior cabe a obras de porte, como hidrelétricas
Sem contar os gastos com a redução do ritmo do desmatamento do cerrado, o governo estima em US$ 166 bilhões o custo, em dez anos, para cortar as emissões de gases-estufa no Brasil entre 36% e 39% do volume estimado para 2020.
O custo aproximado para tirar do papel as metas propostas em novembro, anunciado ontem, equivale a apenas um ano do financiamento necessário para combater a mudança climática no mundo, o qual deve vir de um fundo global. O Brasil apoia o fundo e o vê como único resultado viável da conferência do clima em Copenhague.
O número foi apresentado pela ministra Dilma Rousseff. Ela insistiu que o Brasil espera contar com financiamento externo para reduzir as emissões de gases responsáveis pelo aquecimento global.
Conta salgadaAs metas consumiriam, por ano, mais da metade do dinheiro arrecadado com impostos e destinados aos investimentos públicos, caso tivessem de ser bancadas com o Orçamento da União. Atualmente, a conta das ações de mitigação é paga com dinheiro público, de linhas de financiamento oficiais, e a participação da iniciativa privada. ‘A gente quer linha de financiamento, recursos internacionais’, defendeu a ministra.
Na contabilidade apresentada ontem, o maior peso -quase 80%- recai sobre a construção de usinas hidrelétricas, estímulo ao uso de biocombustíveis e medidas de eficiência energética. A área de energia responde por menos da quinta parte da meta de corte das emissões brasileiras em cerca de 1 bilhão de toneladas de gases de efeito estufa até 2020.
A parcela menos cara das metas do governo é, paradoxalmente, a que contribui com a maior parcela de redução das emissões. O governo prevê que a redução em 80% do desmatamento da Amazônia exigirá investimentos de US$ 21 bilhões ao longo de dez anos.A recuperação de pastagens degradadas e demais medidas na área de agricultura consumiriam pouco mais de US$ 32 bilhões, disse a ministra. ‘São números provisórios, indicativos’, disse Dilma Rousseff. Os dados foram submetidos ao presidente na primeira reunião depois da chegada de Lula a Copenhague. ‘E ainda falta o cerrado’, insistiu.
É para conter o desmatamento do cerrado que o governo espera ver destinada boa parte dos investimentos em Redd (redução de emissões por desmatamento e degradação), mecanismo cujas regras são discutidas na conferência do clima. Na região, os proprietários rurais têm direito, por lei, a desmatar até 80% de suas terras, daí a necessidade maior de estímulos financeiros.
Três dias depois de ter sido questionada sobre o financiamento de R$ 1 bilhão para a construção de uma usina térmica a carvão no Maranhão, do empresário Eike Batista, a ministra continuou sem resposta sobre a conveniência do investimento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). ‘Não tive tempo de olhar em que contexto foi concedido esse financiamento’, disse ontem.
As térmicas a carvão representam a forma mais poluente de geração de energia. Ao ser questionada novamente ontem, Dilma voltou a cobrar pressa na liberação de licenças ambientais a usinas hidrelétricas. (Marta Salomon, Claudio Angelo e Luciana Coelho)