“Energia, Trabalho e Desenvolvimento” em debate

“Energia, Trabalho e Desenvolvimento” em debate
08 maio 19:23 2017 Lílian Parise

Seminário organizado pelo Sinergia CUT foca no desmonte da Petrobras e no drama ambiental mundial provocado pelo consumismo sem limites

“O setor de energia passa por um momento de disputa mundial de modelo de desenvolvimento, onde o capital não aceita reduzir lucros e aposta na redução de mão de obra e no corte de investimentos. O desmonte atual provocado na Petrobras é para privatizar tudo, assim como aconteceu com as empresas de energia elétrica e o gás nos anos 90. É uma disputa globalizada de controle do petróleo e do pré-sal. E é por isso que, junto com a CUT, estamos impondo nossa resistência”.

A afirmação é de Cibele Vieira, dirigente da Federação Única dos Petroleiros (FUP) e da CUT-SP, que dividiu a mesa de debates do Seminário “Energia, Trabalho e Desenvolvimento” com o economista Ladislau Dowbor, professor doutor pela PUC São Paulo, com mediação de Wilson Marques de Almeida, diretor do Sinergia CUT.

Já Dowbor fez uma análise global sobre as novas tecnologias e os vários impactos provocados no planeta. “Não é a tecnologia que é ruim, O desafio central é de assegurar que o marco legal, as instituições e sistemas de gestão se renovem conforme as tecnologias avançam. E, em geral, o que podemos chamar de governança do sistema avança muito mais lentamente do que a tecnologia. Evidentemente, as empresas que mais lucram com o sistema usam toda a sua força política para evitar a modernização dos sistemas de controle”, afirmou.

O seminário aconteceu na tarde da última sexta-feira (5), em Campinas, com o objetivo de “refletir sobre o papel da energia no Brasil e no estado de São Paulo, articulado a um modelo de desenvolvimento sustentável onde o trabalho tenha centralidade”. Mas, diante da atual crise política e econômica, os debatedores acabaram também analisando o cenário brasileiro no presente e no futuro próximo.

A disputa pela Petrobras

Cibele Vieira começou sua análise da situação da Petrobras desde a descoberta do pré-sal, em 2007, passando pelo novo modelo de partilha e pela revelação da espionagem americana na estatal, até a chegada da operação Lava Jato e o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, em 2016. “Foram muitos os ataques que atingiram a Petrobras, com tentativas de desmontar  e até forjar falência para privatizar, iniciativas que só foram barradas pela resistência de petroleiros e movimentos sindical e sociais”, alertou.

Para ela, o Brasil atual passa por uma crise estrutural e institucional: “A grande pergunta é qual o papel do Estado hoje. Com o golpe, sai o papel de provedor de políticas sociais e de direitos, entra o interventor da economia, com uma guinada para a autonomia do Banco Central, para a privatização da Petrobras, com um Estado regrador e de retrocesso ao conservadorismo, ao acirramento da opressão e da censura. Uma conjuntura complicada, com um executivo ilegítimo e um STF arbitrário, contando ainda com a cumplicidade de uma disputa internacional capitaneada pelos Estados Unidos”.

“Mas o governo ilegítimo de Temer está se mostrando mais fraco do que imaginavam os golpistas. Anunciaram medidas impopulares, mas o que estão fazendo revoltou a população que já mostra insatisfação com as propostas impopulares de reformas que só beneficiam o capital. Para nós, só há um caminho, que é o de continuar nas ruas, lutar e resistir”, concluiu Vieira.

O drama ambiental no Brasil e no mundo

Economista, ex-exilado político e consultor aposentado da ONU (Organização das Nações Unidas), o professor doutor Ladislau Dowber começou sua análise pelo drama da destruição ambiental como consequência do consumismo desenfreado. “Países como a Suécia, onde a maior parte da carga tributária vai para os municípios e o dinheiro é bem aplicado a partir da sociedade organizada e participativa, as coisas funcionam e há justiça social com distribuição de renda. No Brasil e outros países, inclusive EUA, vivemos o drama da destruição ambiental, principalmente pelo incentivo ao consumismo sem limites e à ‘financeirização’ do sistema, onde aplicar dinheiro no mercado rende muito mais do que investir em produção”, comparou.

Como resultado do incentivo mundial ao consumismo desregrado, citou a destruição de 52% da fauna do planeta em cerca de quarenta anos, a contaminação da água e o fim dos recursos pesqueiros. “Tudo isso agravado pela falta de desenvolvimento social, com 1% da população concentrando renda, riqueza e consumo, provocando a quebra de mecanismos de distribuição de renda e a redução de gastos para as camadas mais pobres”, destacou.

“Um drama ambiental sem inclusão produtiva e milhões de pessoas sem acesso à inclusão social. E isso não é só no Brasil. Nos EUA, por exemplo, a população está sem aumento do poder aquisitivo desde os anos 1970. E as multinacionais trabalham no mesmo esquema de propina que as empresas nacionais. Essa é a dinâmica da crise. É preciso repensar o uso dos recursos e da carga tributária”, analisou.

E concluiu: “Com a atividade empresarial nesses moldes, a economia não funciona, a produção para, o desemprego aumenta, a crise se aprofunda. A agiotagem é generalizada, os créditos têm juros estratosféricos, e não há economia que funcione assim. E, quando se reduz investimentos em políticas sociais, paga-se do bolso. Sem falar que a guerra aqui é mundial. O golpe começou em dezembro de 2013 e esse negócio não está dando certo”.

Os textos do professor, incluindo estudo sobre Energias Renováveis no Brasil, estão disponíveis em http://dowbor.org

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