Nos dois primeiros trimestres de 2013 (janeiro a junho), os investimentos da Fundação Cesp apresentaram rentabilidades abaixo do esperado. Quais as razões para isso?
As dificuldades enfrentadas pelo mercado financeiro neste ano têm duas causas básicas, sendo uma interna e outra externa.
A primeira é de natureza interna: inflação em alta, crescimento econômico baixo, piora nas contas públicas e saldo negativo nas transações correntes. Tudo isso resultou numa piora acentuada das expectativas para a economia brasileira em 2013.
A segunda causa é externa: a indicação pelo Banco Central dos EUA de que pode reverter medidas monetárias tomadas para estimular o crescimento da economia. Isso provocou a alta dos juros básicos e afetou o preço dos ativos financeiros no mundo todo, afinal, é uma mudança de rumos na maior economia do mundo.
Esta conjunção de um cenário doméstico complicado com um cenário externo desfavorável resultou em impactos negativos nos ativos financeiros negociados no Brasil, tanto os ativos de renda variável quanto de renda fixa, fato inédito na história recente da carteira de investimentos da Fundação CESP.
Na renda variável (mercado de ações), uma perspectiva pessimista para a economia é prenúncio de desempenho fraco das empresas, já juros maiores nos EUA é estímulo à volta para aquele país de recursos externos aplicados no Brasil, o resultado foi uma queda no Ibovespa de 61.000 (dez-12) para 47.400 pontos em junho deste ano, oscilação negativa de 22%.
Na renda fixa (mercado de títulos públicos e privados), esta conjunção altamente desfavorável do cenário interno (sobretudo a piora nas contas públicas e a alta da inflação) com o cenário externo (especialmente a alta de juros nos EUA), causou uma desvalorização dos ativos negociados no mercado brasileiro, pois o pessimismo e os juros maiores nos EUA aumentaram a exigência dos investidores por juros mais altos dos títulos locais, seja do governo federal ou de empresas. Na renda fixa prefixada, juros maiores geram redução do valor atual dos ativos; por isso, títulos com vencimento em 2050, por exemplo, chegaram a cair 20% em 2013.
Em junho de 2013, a renda fixa correspondia a cerca de 73% dos ativos administrados pela Fundação CESP e a renda variável representava cerca de 21%, portanto, a maior parte dos ativos dos planos previdenciários.
Estes títulos públicos têm uma parcela do rendimento determinada pelo índice de inflação ao qual são atrelados (IPCA e IGP-M) e outra parte determinada por sua taxa de juros. Ocorre que esta taxa de juros é prefixada, o que significa dizer que oscilações de mercado nestas taxas de juros têm impactos no valor destes títulos.
Apesar de o valor destes títulos de nossa carteira oscilar com a variação da sua respectiva taxa de juros, a rentabilidade final, no seu vencimento, será aquela acordada na sua compra. Na carteira da Fundação CESP, todos os títulos indexados à inflação têm taxa de juros superior à meta atuarial, ou seja, seu resultado final será positivo e superior à meta atuarial. Portanto, o resultado desfavorável deste primeiro semestre reflete uma oscilação de curto prazo.
No ano passado havia um grande otimismo com a economia brasileira e a taxa de juros destes títulos caiu muito, os juros de alguns chegaram a ficar abaixo de 4% ao ano. Esta queda acentuada dos juros em 2012 fez com que estes papéis se valorizassem muito, o que levou a rentabilidade da renda fixa da Fundação CESP a atingir 36%, resultado muito superior quando comparamos com a meta atuarial de 13,67% e a taxa SELIC de 8,49%. Aqui também vale o mesmo raciocínio, isto é, trata-se de um resultado muito bom, mas é de curto prazo.
Já em 2013, o otimismo exagerado de 2012 foi substituído pelo pessimismo, agravado pelas mudanças anunciadas nos EUA. Neste cenário, as taxas de juros dos títulos públicos subiram consideravelmente, revertendo parte da queda do ano passado e causando uma redução no valor destes títulos, movimento inverso ao ocorrido em 2012.
Mas, se acumularmos a rentabilidade média de todos o planos em 2012 (24,58%) com a rentabilidade média de janeiro a junho de 2013 (-3,83%) chegamos a uma rentabilidade total de 19,80%, valor que supera no período a meta atuarial (18,79%), o CDI (12,11%) e a poupança (9,81%).
É importante notar que a gestão de investimentos de um plano previdenciário exige uma estratégia de longo prazo, já que são recursos destinados ao pagamento de benefícios pelas próximas décadas. Evidentemente que esta estratégia de longo prazo está sujeita a períodos desfavoráveis, como está sendo o ano de 2013, apesar disso é fundamental para o sucesso da gestão que nestes períodos difíceis o gestor não se desvie da estratégia de longo prazo.
Sendo assim, vamos tomar um prazo mais longo ainda, incluindo a crise financeira de 2008, a pior desde a grande depressão de 1929. Neste caso, veremos que a rentabilidade média acumulada de todos os planos de janeiro de 2008 a junho de 2013 foi de 104,50%, contra um acumulado da meta atuarial de 91,59%, do CDI de 69,55% e da poupança de 45,48%.
É por causa da rentabilidade desfavorável deste primeiro semestre que a sua reserva de junho/13, informada nos extratos previdenciários, é menor que a reserva de março/13, mas é fundamental esclarecer que este é um resultado de curto prazo, e que a rentabilidade tende a se recuperar futuramente, no longo prazo, pelos motivos expostos acima.