{"id":7825,"date":"2010-11-26T14:21:58","date_gmt":"2010-11-26T14:21:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.becodigital.com.br\/wordpress\/index.php\/maria-da-penha-quatro-anos-depois-da-lei-conscientizacao-e-capacitacao-sao-necessidades-urgentes\/"},"modified":"2010-11-26T14:21:58","modified_gmt":"2010-11-26T14:21:58","slug":"maria-da-penha-quatro-anos-depois-da-lei-conscientizacao-e-capacitacao-sao-necessidades-urgentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/?p=7825","title":{"rendered":"Maria da Penha: Quatro anos depois da lei, conscientiza\u00e7\u00e3o e capacita\u00e7\u00e3o s\u00e3o necessidades urgentes"},"content":{"rendered":"<p class=\"caps\"><P>Em 1983 Maria da Penha Maia Fernandes estava dormindo quando levou um tiro pelas costas. O autor do disparo era o marido, pai de suas tr\u00eas filhas. Maria ficou parapl\u00e9gica, mas voltou para casa depois de uma temporada no hospital. Ela j\u00e1 sofria com agress\u00f5es antes do epis\u00f3dio, mas, aos 38 anos, temia em pedir a separa\u00e7\u00e3o. \u201cTinha medo que chegasse a esse ponto de viol\u00eancia, mas ao mesmo tempo achava que n\u00e3o seria poss\u00edvel\u201d, diz. Ela s\u00f3 saiu de casa depois da segunda tentativa de assassinato por Marco Ant\u00f4nio Viveiros, que desta vez tentou eletrocut\u00e1-la durante o banho.<\/P><br \/>\n<P>O caso de Maria choca e se tornou um \u00edcone na luta pelos direitos da mulher, mas n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o. Segundo dados das Na\u00e7\u00f5es Unidas, uma em cada tr\u00eas mulheres no mundo \u00e9 v\u00edtima de viol\u00eancia. Na Am\u00e9rica Latina, a propor\u00e7\u00e3o sobe para 40%, de acordo com a Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para Am\u00e9rica Latina e Caribe (Cepal). Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Cultura (Unesco), o problema atinge propor\u00e7\u00f5es epid\u00eamicas.<\/P><br \/>\n<P>A puni\u00e7\u00e3o do agressor de Maria da Penha s\u00f3 veio depois de 19 anos de julgamento \u2013 e ele ficou apenas dois anos em regime fechado. O caso chegou a ser denunciado internacionalmente como exemplo de omiss\u00e3o e neglig\u00eancia e ajudou a pressionar uma mudan\u00e7a na constitui\u00e7\u00e3o brasileira.<\/P><br \/>\n<P>Maria da Penha hoje d\u00e1 nome para a lei 11.340, que entrou em vigor em 2006, e cria mecanismos para coibir a viol\u00eancia dom\u00e9stica e familiar contra a mulher, como possibilitar a pris\u00e3o preventiva ou em flagrante dos agressores.<\/P><br \/>\n<P><BR><STRONG>Novos desafios<\/STRONG><\/P><br \/>\n<P>Embora as pesquisas indiquem um aumento do conhecimento da Lei Maria da Penha pela popula\u00e7\u00e3o em geral &#8211; um n\u00famero que gira em torno de 80% segundo dados do Ibope e Instituto Avon -, isso n\u00e3o basta para garantir a diminui\u00e7\u00e3o das ocorr\u00eancias. Quatro anos depois que a lei entrou em vigor, a conscientiza\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental, um processo longo que n\u00e3o envolve s\u00f3 as mulheres. Homens, jovens e aqueles que aplicam a lei \u2013 da delegacia ao tribunal \u2013 s\u00e3o p\u00fablicos alvo.<\/P><br \/>\n<P>\u201cPrecisamos pensar tanto na conscientiza\u00e7\u00e3o das mulheres como na capacita\u00e7\u00e3o dos operadores de direito, que aplicam a lei. Elas precisam dizer n\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia e denunciar, mas com a confian\u00e7a de que ser\u00e3o atendidas e que a lei ser\u00e1 cumprida\u201d diz Rebecca Tavares, representante do UNIFEM no Brasil e Cone Sul. Segundo ela, muitas mulheres que procuram ajuda acabam sendo agredidas novamente, julgadas ou enviadas de volta para casa. \u201c\u00c9 poss\u00edvel que delegados questionem a roupa que usam, se deveriam ou n\u00e3o ter sa\u00eddo sozinhas\u201d, aponta.<\/P><br \/>\n<P>Somente 7% dos munic\u00edpios brasileiros t\u00eam delegacias especializadas no atendimento a mulher. \u201cQualquer delegado \u00e9 obrigado a atender a mulher, mas ainda assim eles a mandam para a delegacia da mulher. E ela chega l\u00e1, pega senha e volta para casa\u201d, critica Maria da Penha, que v\u00ea uma insufici\u00eancia no sistema de atendimento em fun\u00e7\u00e3o da demanda de queixas.<\/P><br \/>\n<P>Hoje, dia 25 de novembro, \u00e9 o dia Internacional para a Elimina\u00e7\u00e3o da Viol\u00eancia contra a Mulher. Entre as iniciativas que integram o movimento este ano, est\u00e1 o rec\u00e9m lan\u00e7ado portal Quebre o Ciclo (<A href='http:\/\/www.quebreociclo.com.br'>www.quebreociclo.com.br<\/A>), iniciativa do Fundo de Desenvolvimento das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Mulher (UNIFEM) em parceria com o Instituto Avon. A plataforma tem como objetivo aumentar a conscientiza\u00e7\u00e3o de mulheres e operadores de justi\u00e7a.<\/P><br \/>\n<P><STRONG>Eliza Samudio: erro e machismo<\/STRONG><\/P><br \/>\n<P>Um exemplo recente no erro na aplica\u00e7\u00e3o da lei \u00e9 o caso de Eliza Samudio e o goleiro Bruno Fernandes \u2013 o jogador \u00e9 suspeito pela pol\u00edcia pelo sumi\u00e7o da ex-namorada. Antes de desaparecer, ela havia denunciado agress\u00f5es do jogador, mas n\u00e3o recebeu a prote\u00e7\u00e3o devida. \u201cA ju\u00edza adotou uma medida machista. Foi um erro baseado na convic\u00e7\u00e3o que existem classes diferentes de mulheres. N\u00e3o importa se ela era casada, juntada ou ex-amante\u201d, critica Penha. Para Rebecca, ela foi mais uma das mulheres que a justi\u00e7a simplesmente n\u00e3o atendeu mesmo depois de v\u00e1rias den\u00fancias. \u201c\u00c9 um caso comum. O brasileiro sabe dessa hist\u00f3ria porque ele (Bruno) \u00e9 famoso, mas muitas mulheres s\u00e3o assassinadas mesmo ap\u00f3s procurar o apoio do governo\u201d, diz. Dados consolidados pela UNIFEM apontam que metade das mulheres que morrem em homic\u00eddios s\u00e3o mortas pelos parceiros, maridos ou namorado.<\/P><br \/>\n<P><STRONG>\u201cMuitos s\u00e3o lords\u201d<\/STRONG><\/P><br \/>\n<P>A quest\u00e3o cultural e o car\u00e1ter possessivo ou violento dos homens, assim como o alcoolismo, ainda s\u00e3o vistas como as principais causas da viol\u00eancia de g\u00eanero no Brasil, segundo um levantamento de percep\u00e7\u00e3o sobre viol\u00eancia dom\u00e9stica realizado em 2009 pelo Instituto Avon. Maria da Penha \u00e9 farmac\u00eautica bioqu\u00edmica. Seu ex-marido, economista e professor. At\u00e9 por isso, ela refuta a associa\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia \u00e0 condi\u00e7\u00e3o social das fam\u00edlias e cr\u00ea que, quanto mais elitizado o caso de viol\u00eancia contra a mulher, mais camuflado ele \u00e9. \u201cN\u00e3o h\u00e1 perfil do homem agressor. Muitos s\u00e3o lords, gentlemans\u201d, diz.<\/P><br \/>\n<P><STRONG>Viol\u00eancia sem marcas<\/STRONG><\/P><br \/>\n<P>Muitas mulheres que sofrem viol\u00eancia n\u00e3o sabem. Isso porque a imagem dos hematomas pelo corpo pode ser a primeira associa\u00e7\u00e3o quando se pensa em agress\u00e3o ou viol\u00eancia. Mas o problema vai al\u00e9m das marcas f\u00edsicas. Rela\u00e7\u00f5es sexuais for\u00e7adas, viol\u00eancia psicol\u00f3gica, moral e patrimonial se encaixam na lei e no alarmante cen\u00e1rio mundial. A mulher que escuta xingamentos, tem seus bens subtra\u00eddos pelo marido, se sente intimidada e com a autoestima abalada ou \u00e9 privada de trabalhar tamb\u00e9m pode, e deve, fazer a den\u00fancia. \u201cElas demoram a perceber que \u00e9 viol\u00eancia, n\u00e3o sabem seus direitos e que podem denunciar. \u00c9 um trabalho de educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica\u201d, aponta Rebecca.<\/P><br \/>\n<P>Nos primeiros cinco meses de 2010 foram registrados mais de 51 mil relatos de viol\u00eancia no pa\u00eds pela Central de Atendimento a Mulher, no telefone 180. Entre eles, 29.515 eram de viol\u00eancia f\u00edsica enquanto 13.464 casos relatados eram de teor psicol\u00f3gico e 6.438 de viol\u00eancia moral.<\/P><br \/>\n<P><STRONG>Sem desculpa<\/STRONG><\/P><br \/>\n<P>\u201cEle estava estressado, foi uma vez s\u00f3\u201d \u00e9 uma das justificativas para agress\u00f5es que as mulheres encontram e usam para minimizar a viol\u00eancia e uma das posturas que \u00e9 combatida pelas campanhas nacionais e internacionais.<\/P><br \/>\n<P>Mas h\u00e1 outros motivos pelos quais mulheres n\u00e3o denunciam seus companheiros. Segundo Rebecca, al\u00e9m do constrangimento e receio de humilha\u00e7\u00e3o, mulheres com filhos se sentem \u2013 ou s\u00e3o \u2013 mais dependentes do marido. \u201cEle diz que nunca mais vai acontecer. Isso \u00e9 comum\u201d, avalia. A viol\u00eancia come\u00e7a aos poucos, pode ser inicialmente psicol\u00f3gica ou moral. \u201cE quando voc\u00ea perdoa, participa do ciclo de viol\u00eancia. Eu entrei no ciclo tr\u00eas vezes\u201d, diz Maria da Penha.<EM> (Julia Reis)<\/EM><\/P><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1983 Maria da Penha Maia Fernandes estava dormindo quando levou um tiro pelas costas. O autor do disparo era o marido, pai de suas tr\u00eas filhas. 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