{"id":7609,"date":"2010-08-24T18:26:14","date_gmt":"2010-08-24T18:26:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.becodigital.com.br\/wordpress\/index.php\/no-ar-o-brasil\/"},"modified":"2010-08-24T18:26:14","modified_gmt":"2010-08-24T18:26:14","slug":"no-ar-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/?p=7609","title":{"rendered":"No ar, o Brasil"},"content":{"rendered":"<p class=\"caps\"><P><STRONG>ABC conquista a primeira concess\u00e3o de canal aberto para uma entidade de trabalhadores. O novo ve\u00edculo pretende multiplicar a voz de movimentos e redes sociais e inovar a produ\u00e7\u00e3o de TV no pa\u00eds<\/STRONG><\/P><br \/>\n<P>Foram necess\u00e1rios 22 anos, dez meses, 15 dias, cinco governos e quatro \u201cn\u00e3os\u201d para que os trabalhadores conquistassem a sua primeira emissora de televis\u00e3o, superando o ainda pantanoso terreno das concess\u00f5es p\u00fablicas. A espera acabou. <\/P><br \/>\n<P>Neste 23 de agosto entra no ar a TVT (TV dos Trabalhadores), com programa\u00e7\u00e3o voltada para presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os, cidadania e educa\u00e7\u00e3o e um p\u00e9 na internet. Uma experi\u00eancia in\u00e9dita que pode escrever um novo cap\u00edtulo na hist\u00f3ria dos meios de comunica\u00e7\u00e3o no Brasil, 60 anos ap\u00f3s o in\u00edcio das transmiss\u00f5es de TV no pa\u00eds. Em julho, os corredores da emissora, em um pr\u00e9dio no centro de S\u00e3o Bernardo do Campo, j\u00e1 mostravam a movimenta\u00e7\u00e3o t\u00edpica de uma reda\u00e7\u00e3o.<\/P><br \/>\n<P>Dezenas de pessoas \u2013 h\u00e1 quase 100 envolvidas no projeto \u2013 preparavam os primeiros programas, discutiam pautas, selecionavam imagens, indo para l\u00e1 e para c\u00e1 entre os dois est\u00fadios e as quatro ilhas de edi\u00e7\u00e3o. \u201cTemos percebido uma emo\u00e7\u00e3o muito grande. Enfim, estamos no jogo\u201d, afirma a diretora de Jornalismo, Nelma Salom\u00e3o.<\/P><br \/>\n<P>Essa hist\u00f3ria come\u00e7a em 29 de setembro de 1987, por iniciativa do Sindicato dos Metal\u00fargicos de S\u00e3o Bernardo do Campo e Diadema, quando uma comiss\u00e3o foi recebida pelo ent\u00e3o ministro das Comunica\u00e7\u00f5es, Antonio Carlos Magalh\u00e3es, falecido em 2007. Era o governo Sarney, um recordista de concess\u00f5es \u2013 ap\u00f3s a Constituinte de 1988, o Executivo perdeu a prerrogativa de ser o \u00fanico a decidir. A partir da\u00ed, o Congresso tamb\u00e9m teria de aprovar. Tornou-se, por sinal, tema predominante no Parlamento: em 2009, a maior parcela de propostas aprovadas pelo Senado, 901 de 2.364, foi referente a autoriza\u00e7\u00f5es ou permiss\u00f5es para funcionamento de r\u00e1dio e televis\u00e3o. Em 21 de julho \u00faltimo, decreto assinado pelo presidente Lula criou uma comiss\u00e3o interministerial para \u201celaborar estudos e apresentar propostas de revis\u00e3o do marco regulat\u00f3rio de organiza\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os de telecomunica\u00e7\u00f5es e radiodifus\u00e3o\u201d.<\/P><br \/>\n<P>Integravam aquela miss\u00e3o de 1987 o deputado federal Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, atual presidente da Rep\u00fablica; os presidentes da CUT, Jair Meneguelli, hoje \u00e0 frente do Servi\u00e7o Social da Ind\u00fastria (Sesi), e do sindicato, Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, atual deputado federal; e o secret\u00e1rio-geral da entidade, M\u00e1rio dos Santos Barbosa. Eles pediam a concess\u00e3o ao todo-poderoso dono da caneta capaz de determinar a abertura e o fechamento de canais de r\u00e1dio e de televis\u00e3o.<\/P><br \/>\n<P>O ministro pediu um estudo t\u00e9cnico, que posteriormente seria aprovado \u2013 mas por um prefeito da regi\u00e3o \u2013 para ganhar sua emissora educativa. Desde ent\u00e3o, foram quatro tentativas e quatro negativas, sem crit\u00e9rios t\u00e9cnicos convincentes. Para eles, a motiva\u00e7\u00e3o para que a concess\u00e3o n\u00e3o sa\u00edsse sempre foi pol\u00edtica, j\u00e1 que os requisitos exigidos estavam todos l\u00e1.<\/P><br \/>\n<P>Um ano antes, os metal\u00fargicos j\u00e1 haviam criado a TVT (TV dos Trabalhadores), com a preocupa\u00e7\u00e3o de documentar e preservar a mem\u00f3ria da categoria. Hoje dona de um grande acervo, a produtora come\u00e7ou a preparar uma s\u00e9rie de programas, al\u00e9m de cobrir os mais diversos tipos de eventos. Um dos mais lembrados \u00e9 o programa Olhar Brasileiro, exibido na Record em 1993.<\/P><br \/>\n<P>O ex-operador de m\u00e1quina da Mercedes-Benz&shy; Josimar Alves Bezerra, que se tornaria o cinegrafista Banana, lembra das filmagens iniciais, feitas a pedido de Barbosa, da greve conhecida como Vaca Brava, em 1985, pela redu\u00e7\u00e3o da jornada. H\u00e1 20 anos na TVT, Banana cuida do acervo, que conhece como poucos. \u00c9 o funcion\u00e1rio mais antigo da produtora, ao lado do coordenador, o ex-ferramenteiro Elizeu Marques da Silva.<\/P><br \/>\n<P><STRONG>Sonho<BR><\/STRONG>Em 1991, foi criada a Funda\u00e7\u00e3o Sociedade Comunica\u00e7\u00e3o, Cultura e Trabalho, dirigida por um conselho de 40 integrantes, representando diversas categorias profissionais, como os pr\u00f3prios metal\u00fargicos, qu\u00edmicos, banc\u00e1rios entre outros. O atual presidente da Funda\u00e7\u00e3o, Valter Sanches, diretor de Comunica\u00e7\u00e3o do Sindicato dos Metal\u00fargicos do ABC, considera que ele e toda a equipe em torno da emissora s\u00e3o \u201crealizadores de sonhos\u201d, concretizando uma antiga reivindica\u00e7\u00e3o, aprovada em congresso da categoria. Em 13 de abril de 2005, saiu a concess\u00e3o para o canal 46, de Mogi das Cruzes, na regi\u00e3o da Grande S\u00e3o Paulo. A outorga veio em 19 de outubro do ano passado.<\/P><br \/>\n<P>Inicialmente, a emissora produzir\u00e1 sete programas, com uma hora e meia di\u00e1ria no total (leia box). A grade ser\u00e1 completada, neste primeiro momento, com retransmiss\u00f5es da TV Brasil e especiais da TV C\u00e2mara.&shy; \u201cToda a programa\u00e7\u00e3o est\u00e1 voltada para os movimentos sociais, para a vida do trabalhador\u201d, diz Sanches.<\/P><br \/>\n<P>\u201cO projeto de comunica\u00e7\u00e3o prev\u00ea que o principal meio \u00e9 a internet\u201d, conta o diretor de programa\u00e7\u00e3o da TVT, Antonio Jord\u00e3o Pacheco, lembrando que a emissora j\u00e1 \u00e9 conhecida como uma m\u00e1quina de escuta. \u201cA forma\u00e7\u00e3o de redes sociais \u00e9 fundamental para que o projeto cres\u00e7a.\u201d Movimentos sociais ter\u00e3o oito c\u00e2meras e poder\u00e3o colaborar nas reportagens, assim como comiss\u00f5es de f\u00e1brica (representantes de trabalhadores em seus locais de trabalho) na base dos metal\u00fargicos. Tamb\u00e9m haver\u00e1 espa\u00e7o para receber mensagens e sugest\u00f5es via Twitter, Facebook, blog e Orkut. \u201cVamos ter reuni\u00f5es de pauta ao vivo pela internet\u201d, acrescenta Nelma Salom\u00e3o.<\/P><br \/>\n<P>A transmiss\u00e3o ser\u00e1 feita pelo canal UHF 46, de Mogi das Cruzes, e pela NGT, que tem emissoras pr\u00f3prias em S\u00e3o Paulo (48 UHF) e Rio (26 UHF), cobrindo as duas regi\u00f5es metropolitanas, al\u00e9m de uma rede de emissoras afiliadas, que cobrem hoje por volta de um quarto do territ\u00f3rio nacional. O projeto inclui transmiss\u00f5es via cabo por meio de canais comunit\u00e1rios, por meio de parceria com associa\u00e7\u00e3o estadual do setor, em S\u00e3o Paulo. Com isso, os coordenadores afirmam que a programa\u00e7\u00e3o da TVT poder\u00e1 ser vista praticamente em todas as regi\u00f5es do pa\u00eds.<\/P><br \/>\n<P>Para garantir a viabilidade do projeto, houve um aporte de R$ 15 milh\u00f5es, que os metal\u00fargicos calculam ser suficiente para manter a emissora durante tr\u00eas anos. Enquanto isso, a funda\u00e7\u00e3o e o sindicato buscar\u00e3o outras fontes de sustenta\u00e7\u00e3o, como apoios culturais. O projeto de comunica\u00e7\u00e3o pode crescer ainda mais. H\u00e1 duas concess\u00f5es de r\u00e1dio, em S\u00e3o Vicente (2007) e Mogi (2009). O sindicato ainda estuda um meio de fazer com que o sinal chegue at\u00e9 S\u00e3o Paulo para concretizar uma integra\u00e7\u00e3o com a Jornal Brasil Atual, dentro da rede da qual fazem parte o portal de mesmo nome e a Revista do Brasil.<\/P><br \/>\n<P>O objetivo \u00e9 ser plural, lembra Sanches. \u201cPor quatro vezes fomos preteridos\u201d, afirma, lembrando dos pedidos de concess\u00e3o feitos aos governos de plant\u00e3o. \u201cAgora, somos o \u00fanico caso de entidade organizada que tem uma emissora. Mas n\u00e3o queremos permanecer como os \u00fanicos mantenedores. A ideia \u00e9 que os movimentos sociais fa\u00e7am parceria conosco ou tenham sua pr\u00f3pria emissora\u201d, acrescenta. Para ele, o projeto significa o in\u00edcio do rompimento de um preconceito contra o trabalhador. \u201cO mundo do trabalho n\u00e3o \u00e9 retratado.\u201d<\/P><br \/>\n<P>Previs\u00edveis, as primeiras cr\u00edticas surgiram muito tempo antes de a emissora entrar no ar. O presidente do Sindicato dos Metal\u00fargicos, S\u00e9rgio Nobre, responde com outra pergunta: \u201cPor que todos podem ter um canal de televis\u00e3o, menos o trabalhador?\u201d Ele cita os movimentos iniciados em 1978, com as greves na regi\u00e3o do ABC que fizeram hist\u00f3ria no pa\u00eds. \u201cEra basicamente por democracia, na pol\u00edtica e no interior da f\u00e1brica. Democracia \u00e9 todo mundo poder falar\u201d, resume. \u201cEspero que a nossa TV seja uma porta de entrada para que o mundo do trabalho esteja presente nas comunica\u00e7\u00f5es. \u00c9 um marco hist\u00f3rico\u201d, diz Nobre, acrescentando que agora come\u00e7a um segundo desafio: dar sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0 emissora, que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 dos metal\u00fargicos. \u201cPrecisamos ter muito apoio para realizar o nosso sonho. Queremos dialogar com os movimentos sociais.\u201d<\/P><br \/>\n<P><STRONG>Privil\u00e9gio ou conquista?<BR><\/STRONG>Respons\u00e1vel pelo site Observat\u00f3rio da Imprensa, o veterano jornalista Alberto Dines n\u00e3o v\u00ea diferen\u00e7a entre \u201coferecer uma TV educativa a um sindicato ou ao dono de um curral eleitoral no interior\u201d. Para ele, ambos os casos configuram privil\u00e9gios. \u201c\u00c9 um caso in\u00e9dito, disso n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas. Mas apesar do concession\u00e1rio ser um sindicato de trabalhadores, o ato n\u00e3o se diferencia das centenas de licen\u00e7as para emissoras de r\u00e1dio e TV outorgadas ou renovadas periodicamente em benef\u00edcio de deputados, senadores ou de seus laranjas e apaniguados\u201d, afirmou, em artigo publicado no ano passado no Observat\u00f3rio. Para Dines, o sistema continua \u201cequivocado e irregular\u201d, \u00e0 medida que ignora o pluralismo e, principalmente, a necessidade de estabelecer uma nova pol\u00edtica de regula\u00e7\u00e3o das concess\u00f5es.<\/P><br \/>\n<P>J\u00e1 o professor e jornalista Gabriel Priolli considera a TVT \u201cum surpreendente avan\u00e7o, considerando o hist\u00f3rico do Minist\u00e9rio das Comunica\u00e7\u00f5es\u201d. Para ele, a nova emissora representa uma conquista democr\u00e1tica. \u201c\u00c9 um tabu que se supera. A facilidade com que institui\u00e7\u00f5es como igrejas conseguem concess\u00f5es de canais \u00e9 inversamente proporcional \u00e0 das entidades sociais.\u201d<\/P><br \/>\n<P>Ele chama a aten\u00e7\u00e3o para o fato de a TVT surgir em um momento de desenvolvimento da tecnologia, o que facilita o aprimoramento de v\u00e1rios canais. \u201cA tend\u00eancia universal da televis\u00e3o \u00e9 de segmenta\u00e7\u00e3o, atendendo a demandas espec\u00edficas. J\u00e1 temos hoje canais universit\u00e1rios, do Legislativo, do Judici\u00e1rio. Demos um passo consistente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 democratiza\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Espero que o novo canal contribua para o debate sobre a quest\u00e3o trabalhista no Brasil\u201d, diz Priolli.<\/P><br \/>\n<P>Ao mesmo tempo, ele cobra avan\u00e7os na regulamenta\u00e7\u00e3o do setor. O sistema, diz ele, segue caminhando de forma lenta e irregular. As outorgas, por exemplo, teriam de passar pelo Conselho de Comunica\u00e7\u00e3o Social, \u201cque n\u00e3o se re\u00fane h\u00e1 tr\u00eas anos, por falta de interesse dos pol\u00edticos que controlam o Congresso e s\u00e3o na sua maioria radiodifusores ou ligados \u00e0 radiodifus\u00e3o\u201d.<\/P><br \/>\n<P>A 1\u00aa Confer\u00eancia Nacional de Comunica\u00e7\u00e3o (Confecom) representou um avan\u00e7o, avalia Priolli, mas \u201cprecisa resultar em projetos de lei e pol\u00edticas p\u00fablicas\u201d. Ele aguarda tamb\u00e9m pelos resultados da comiss\u00e3o interministerial criada em julho por Lula. \u201cEstamos vendo, h\u00e1 muitos anos, in\u00fameras tentativas de revis\u00e3o do marco regulat\u00f3rio. Espero que desta vez o governo resista e leve isso adiante, porque a cada dia a legisla\u00e7\u00e3o fica mais obsoleta.\u201d (Vitor Nuzzi)<BR><\/P><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ABC conquista a primeira concess\u00e3o de canal aberto para uma entidade de trabalhadores. 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