{"id":5029,"date":"2006-10-27T18:20:25","date_gmt":"2006-10-27T18:20:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.becodigital.com.br\/wordpress\/index.php\/opiniao-o-amor-do-meu-voto-artigo-do-jornalista-inacio-franca-2\/"},"modified":"2006-10-27T18:20:25","modified_gmt":"2006-10-27T18:20:25","slug":"opiniao-o-amor-do-meu-voto-artigo-do-jornalista-inacio-franca-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/?p=5029","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: &#8216;O amor do meu voto&#8217;, artigo do jornalista In\u00e1cio Fran\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p class=\"caps\"><P>Para se chegar a Olivedos de carro \u00e9 preciso entrar \u00e0 direita numa<BR>estrada de terra, 30 minutos depois de Campina Grande. Pouco mais de<BR>3.300 pessoas vivem no munic\u00edpio, a maioria em modestas casas<BR>constru\u00eddas ao redor da pequena igreja matriz, pintada de amarelo. A<BR>caatinga que marca a paisagem dos Cariris Velhos, agreste paraibano,<BR>come\u00e7a j\u00e1 no quintal das casas.<\/P><br \/>\n<P>Numa viagem profissional \u00e0s v\u00e9speras do feriado, passei algumas horas na cidade, tempo suficiente para cumprir a tarefa de acompanhar uma<BR>avalia\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o das pol\u00edticas sociais do munic\u00edpio. Tempo suficiente para as explica\u00e7\u00f5es racionais e ideol\u00f3gicas, que justificaram meu voto em Lula no primeiro turno, perdessem sentido.<\/P><br \/>\n<P>Em Olivedos, pressenti que meu voto em Lula no segundo turno ser\u00e1 um momento de intensa emo\u00e7\u00e3o. Um voto carregado de orgulho, um voto com amor.<\/P><br \/>\n<P>Isso tudo porque cheguei cedo \u00e0 cidade, uma hora antes do previsto.<BR>Aproveitei, ent\u00e3o para perambular pela cidade e conversar com algumas pessoas que participariam da reuni\u00e3o. Logo me chamou a aten\u00e7\u00e3o o movimento diante de uma casinha pintada de verde, na verdade, uma esp\u00e9cie de garagem, com apenas um c\u00f4modo. Em fila diante da garagem, alguns homens simples, ao lado de jumentos que carregavam nas laterais aquelas enormes garrafas de alum\u00ednio para transportar leite. Dentro do im\u00f3vel, um enorme tanque, da altura de um homem adulto, com uns aparelhos modernos e um painel digital, algo improv\u00e1vel numa casinha simples, cercada de mandacarus, xique-xique, juremas e algarobas.<\/P><br \/>\n<P>Uma senhora, que se apresentou como presidente da &#8216;associa\u00e7\u00e3o&#8217;, explicou que aquele tanque era refrigerado, garantia a conserva\u00e7\u00e3o do leite at\u00e9 meio-dia, quando um caminh\u00e3o de uma empresa levava o alimento para a f\u00e1brica, em Jo\u00e3o Pessoa. Com a venda do leite, cada um dos pequenos criadores, donos de min\u00fasculos lotes de terra e tr\u00eas ou quatro vacas, fatura at\u00e9 R$ 550,00 por m\u00eas. At\u00e9 o ano passado, a principal fonte de renda dessas pessoas era o dinheiro da aposentadoria, um sal\u00e1rio-m\u00ednimo, recebido geralmente pela pessoa mais velha da fam\u00edlia.<\/P><br \/>\n<P>Antes, esses criadores s\u00f3 tinham uma sa\u00edda: percorrer a cidade em seus jumentos, vendendo diretamente para os moradores da cidade por R$ 0,30 cada litro. \u00c0s 10h, por causa do calor, o leite come\u00e7ava a estragar. O desperd\u00edcio era grande. Hoje, a empresa paga R$ 0,70 por litro, dos quais R$ 0,05 fica na associa\u00e7\u00e3o para pagamento dos impostos e do sal\u00e1rio do rapaz que recebe o leite e faz os exames para controlar a pureza do alimento, antes de coloc\u00e1-lo no tanque refrigerado.<\/P><br \/>\n<P>O tanque foi comprado com recursos do micro-cr\u00e9dito de um programa do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio. O rapaz aprendeu a testar a<BR>pureza do leite num curso na capital, pago com recursos federais.<\/P><br \/>\n<P>Na mesma rua da garagem onde funciona a cooperativa de leite, est\u00e1 a<BR>Escola de Ensino Fundamental Monsenhor Stanislaw. Orgulhosa, uma<BR>funcion\u00e1ria da prefeitura me leva para conhecer as obras do audit\u00f3rio da escola, que est\u00e1 sendo constru\u00eddo no lugar de um galp\u00e3o cujo teto j\u00e1 amea\u00e7ava os alunos. A obra tamb\u00e9m parece improv\u00e1vel naquela cidade: o audit\u00f3rio ter\u00e1 capacidade para 300 pessoas, 10% da popula\u00e7\u00e3o da cidade, e est\u00e1 sendo constru\u00eddo em forma de anfiteatro, com poltronas confort\u00e1veis que j\u00e1 chegaram e est\u00e3o guardadas, prontas para serem instaladas. &#8216;Quando o audit\u00f3rio, ficar pronto os meninos da banda de P\u00edfanos e do coral v\u00e3o ter onde se apresentar&#8217;, antecipa a funcion\u00e1ria.<\/P><br \/>\n<P>Perguntei de onde veio o dinheiro, a senhora se espantou, respondendo<BR>quase indignada com tamanha ignor\u00e2ncia: &#8216;do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o&#8217;.<BR>Mais adiante, buracos abertos no cal\u00e7amento de paralelep\u00edpedos, na \u00e1rea em torno do col\u00e9gio. A funcion\u00e1ria, gr\u00e1vida de oito meses, informou que aquelas eram obras do saneamento e da rede de esgotos. Segundo ela, at\u00e9 o final de 2007, Olivedos estar\u00e1 100% saneada. Antes que eu fizesse mais outra pergunta besta, ela foi logo dizendo que o dinheiro veio do Minist\u00e9rio das Cidades.<\/P><br \/>\n<P>\u00c1 tarde, depois da avalia\u00e7\u00e3o, se desculparam porque eu n\u00e3o poderia<BR>conhecer o prefeito. &#8216;Josa (esse \u00e9 o apelido do prefeito Josimar) foi em<BR>Jo\u00e3o Pessoa assinar um conv\u00eanio para conseguir mais cisternas e<BR>banheiros pro pessoal da zona rural&#8217;. O conv\u00eanio foi assinado na<BR>Funda\u00e7\u00e3o Nacional de Sa\u00fade., que j\u00e1 custeou a constru\u00e7\u00e3o de dezenas de outras cisternas e banheiros que funcional com \u00e1gua da chuva, captada por calhas, assim como as cisternas.<\/P><br \/>\n<P>A caminho do Recife &#8211; onde vivo a merc\u00ea do notici\u00e1rio da TV e da \u00f3tica<BR>de amigos que recebem sal\u00e1rios razo\u00e1veis, vivem em apartamentos como o meu, com banheiros confort\u00e1veis, em ruas asfaltadas de classe m\u00e9dia e filhos estudando em imensos col\u00e9gios particulares &#8211; avaliei o quanto esses Brasis n\u00e3o se relacionam, n\u00e3o se conhecem. Compreendi o tamanho do abismo que nos separa e quanto est\u00e1 sendo feito para reduzir essa dist\u00e2ncia.<\/P><br \/>\n<P>E entendi os motivos do \u00f3dio e da mobiliza\u00e7\u00e3o daqueles que sempre<BR>tiveram livre acesso ao dinheiro que corre nas veias do Governo Federal. Mais do que saber a origem do dinheiro, o que as elites brasileiras querem mesmo \u00e9 mudar o destino do dinheiro, Afinal, para assegurar cr\u00e9dito para latifundi\u00e1rios e empres\u00e1rios (que nunca pagam o que conseguem nos bancos p\u00fablicos), \u00e9 necess\u00e1rio deixar de lado a constru\u00e7\u00e3o de mais cisternas, novos audit\u00f3rios em escolas sem estrutura, rede de esgotos e a ajuda para cooperativas de leite.<\/P><br \/>\n<P>Mas, finalmente, compreendi porque os moradores de Olivedos se referem ao presidente da Rep\u00fablica como algu\u00e9m da fam\u00edlia. Lu\u00eds In\u00e1cio Lula da Silva, para os olivedenses, \u00e9 o &#8216;nosso Lula&#8217;. O Governo Federal est\u00e1 t\u00e3o perto que o presidente \u00e9 \u00edntimo de todos eles.<BR><\/P><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para se chegar a Olivedos de carro \u00e9 preciso entrar \u00e0 direita numaestrada de terra, 30 minutos depois de Campina Grande. 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