{"id":48468,"date":"2021-03-29T09:38:14","date_gmt":"2021-03-29T12:38:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinergiacut.org.br\/?p=48468"},"modified":"2021-03-29T09:40:18","modified_gmt":"2021-03-29T12:40:18","slug":"noticiario-sobre-violencia-contra-a-mulher-revela-machismo-duradouro-da-imprensa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/?p=48468","title":{"rendered":"Notici\u00e1rio sobre viol\u00eancia contra a mulher revela machismo \u2018duradouro\u2019 da imprensa"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"caps\"><strong>Escrito por: Clara Assun\u00e7\u00e3o | RBA<\/strong>\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda hoje, a jornalista e escritora Vanessa Rodrigues se incomoda com a forma que o assassinato da auxiliar de servi\u00e7os hospitalares, Claudia Silva Ferreira, 38 anos, foi noticiado pela m\u00eddia. Atingida por um tiro durante uma opera\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Militar em Madureira, zona norte do Rio de Janeiro, Claudia foi jogada no cambur\u00e3o da PM, que a levaria para atendimento m\u00e9dico. Por\u00e9m, no trajeto at\u00e9 o hospital, a porta traseira do ve\u00edculo se abriu e seu corpo tombou para fora do carro, ficando preso por uma parte de sua roupa no para-choque. O que fez com que ela fosse arrastada no asfalto da Estrada Intendente Magalh\u00e3es por 350 metros.<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00edtima da viol\u00eancia policial, a auxiliar, m\u00e3e de quatro filhos, mulher negra e perif\u00e9rica, at\u00e9 hoje, no entanto, \u2013 sete anos ap\u00f3s o crime brutalcompletados neste m\u00eas de mar\u00e7o \u2013, tem toda a hist\u00f3ria da viol\u00eancia que sofreu reduzida nas manchetes da m\u00eddia \u201cgrande\u201d como \u201cmorte de mulher arrastada\u201d. Sem qualquer aprofundamento e dimens\u00e3o da viol\u00eancia de g\u00eanero que est\u00e1 por tr\u00e1s dele.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato de Cl\u00e1udia assim ter se tornado conhecida e nomeada \u201c\u00e9 muito emblem\u00e1tico sobre a maneira como essa narrativa jornal\u00edstica foi mis\u00f3gina\u201d, segundo Vanessa. \u201cUm n\u00e3o sujeito, algu\u00e9m que n\u00e3o tinha nome. Sempre me lembro da hist\u00f3ria dessa mulher assassinada de um jeito t\u00e3o brutal e t\u00e3o indigno, de ter tido o seu corpo arrastado na rua. Quer dizer, tratado como nada. E ter sido conhecida e famosa como \u2018Cl\u00e1udia, a mulher arrastada\u2019, ou s\u00f3 \u2018a mulher arrastada&#8217;\u201d, lamenta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2>Narrativa de Femic\u00eddios<\/h2>\n\n\n\n<p>A maneira como o assassinato de Cl\u00e1udia foi apresentado \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica, contudo, \u00e9 s\u00f3 um das dezenas de exemplos de como a m\u00eddia trata a morte de mulheres, inclusive os&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/politica\/2020\/11\/manuela-davila-violencia-politica-contra-mulheres\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">assassinatos motivados<\/a>&nbsp;pela sua condi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, ou seja, pelo fato de serem mulheres. Este \u00e9 o tema que Vanessa e a tamb\u00e9m jornalista e delegada regional do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul em Pelotas, Niara de Oliveira, investigam. A partir de mat\u00e9rias publicadas em sites e portais de not\u00edcias, as jornalistas buscam responder qual o papel da imprensa na narrativa da viol\u00eancia de g\u00eanero e na manuten\u00e7\u00e3o do machismo estrutural da sociedade. A discuss\u00e3o \u00e9 o foco do livro&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/narrativadefeminicidios\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em><strong>Narrativa de Femic\u00eddios<\/strong><\/em><\/a>&nbsp;\u2013 t\u00edtulo provis\u00f3rio. Obra que Vanessa e Niara preparam para lan\u00e7ar ainda no segundo semestre deste ano pela Drops Editora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQueremos isso, propor reflex\u00f5es, um debate sobre as escolhas narrativas. A narrativa \u00e9 o grande tema dos \u00faltimos anos, dos debates em todas as esferas da vida, pol\u00edtica e social. Ent\u00e3o \u00e9 sempre o jeito como se conta uma hist\u00f3ria. O que a gente quer \u00e9 promover um debate para que as coisas n\u00e3o sejam mais assim. Para que consigamos pensar daqui para frente como elas podem ser. Como podemos contar essas hist\u00f3rias sem que a v\u00edtima seja culpabilizada e revitimizada na narrativa. Para da\u00ed pensarmos qual o impacto da maneira justa e correta como essa hist\u00f3ria \u00e9 relatada na diminui\u00e7\u00e3o dos \u00edndices de viol\u00eancia\u201d, explica Vanessa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Feministas muito antes de apostarem no jornalismo, como destacam, o inc\u00f4modo com a linguagem usada para noticiar a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/cidadania\/2020\/04\/violencia-contra-a-mulher-dificuldade-registrar-denuncia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>viol\u00eancia contra as mulheres<\/strong><\/a>&nbsp;acompanha h\u00e1 anos as escritoras, apesar da falta de espa\u00e7o de debate. Ainda estudante, na d\u00e9cada de 1990, Vanessa se recorda que a \u00fanica vez que o tema chegou a ser pautado na faculdade foi pelos aspectos \u201csensacionalistas\u201d do assassinato da atriz Daniella Perez. Em 1992, ela foi golpeada 18 vezes com um punhal pelo ator Guilherme de P\u00e1dua. Um ent\u00e3o colega e \u201cpar rom\u00e2ntico\u201d de Daniella na novela&nbsp;<em>De Corpo e Alma<\/em>, da Rede Globo.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3>Reprodu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia de g\u00eanero<\/h3>\n\n\n\n<p>\u00c0 \u00e9poca foi apontado que o assassino assediava Daniella, antes mesmo do crime, na esperan\u00e7a de conseguir maior espa\u00e7o na trama, que era escrita pela m\u00e3e da atriz, Gl\u00f3ria Perez. Apesar disso, um ano antes de Guilherme ir a julgamento, em 1997, os futuros jornalistas colegas de Vanessa mais analisavam a forma como o crime havia sido noticiado, do que a perspectiva da narrativa e a natureza machista dele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O tema, mais tarde, pautou uma reportagem especial da ent\u00e3o estudante, que queria entender a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/cidadania\/2020\/09\/70-anos-tv-brasileira-lalo-leal\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>reprodu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia contra a mulher em telenovelas<\/strong><\/a>, motivada por uma cena em que uma personagem tinha o rosto navalhado pelo pr\u00f3prio companheiro que descobriu uma trai\u00e7\u00e3o. \u201cEu me lembro que j\u00e1 fazia est\u00e1gio numa organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental e algumas mulheres que trabalhavam comigo estavam ansiosas para ver essa cena, que foi cat\u00e1rtica. Porque essa personagem, que traiu seu companheiro, era a grande vil\u00e3 da novela. Ent\u00e3o tinha toda uma narrativa de merecimento dessa viol\u00eancia\u201d, recorda Vanessa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, a jornalista revisitou o texto em que entrevistou diversos autores de novela, inclusive a pr\u00f3pria Gl\u00f3ria Perez, e se orgulhou do material. Por\u00e9m, ao mesmo tempo ficou espantada com a sua atualidade. Em 2015, Vanessa se juntou a Niara e outras mulheres. A maioria delas \u00e9 profissionais da comunica\u00e7\u00e3o, mas o grupo conta at\u00e9 com delegadas de pol\u00edcia. Juntas, criraram uma p\u00e1gina no Facebook que, logo depois, se transformou na&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/naofoiciume\/?comment_id=Y29tbWVudDoxOTA0OTI3MTEyOTA4OTBfMzY3MDcyNjkwMjk5NTU3\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>comunidade \u201cN\u00e3o Foi Ci\u00fame\u201d<\/strong><\/a>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3>O nome \u00e9 feminic\u00eddio<\/h3>\n\n\n\n<p>\u201cJustamente porque essa era a justificativa que via de regra aparecia como motivo para uma mulher ser assassinada pelo companheiro e ex-companheiro\u201d, explica a jornalista. Um levantamento mais recente sobre os casos de feminic\u00eddios, divulgado no ano passado pelo&nbsp;<strong><a href=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/formacao-de-policiais-para-o-enfrentamento-da-violencia-de-genero\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/a><\/strong>, indica que em 88,8% deles, ocorridos no pa\u00eds em 2018, os assassinos tinham rela\u00e7\u00e3o com a v\u00edtima. A comunidade buscava ent\u00e3o observar a maneira como a m\u00eddia noticiava essa e outras faces da viol\u00eancia contra a mulher.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Desde ent\u00e3o, as jornalistas contam que apuravam pelo menos cinco mat\u00e9rias por dia relacionadas \u00e0&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/mundo\/2020\/07\/violencia-domestica-contra-brasileiras-que-vivem-na-europa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>viol\u00eancia de g\u00eanero<\/strong><\/a>. Com um tempo, no entanto, o trabalho de an\u00e1lise foi ficando cada vez mais pesado, dado o teor dos crimes. O que foi arrefecendo e despertando gatilhos na pr\u00f3pria comunidade. Mas tanto Niara como Vanessa mantinham em seu horizonte a ideia de levar o projeto para o campo da pesquisa cient\u00edfica e para fora das bolhas das redes sociais e seus algoritmos. \u201cDisso surgiu a ideia de transformar parte desse trabalho que faz\u00edamos, com foco em feminic\u00eddio, na publica\u00e7\u00e3o\u201d, resume Vanessa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3>Financiamento coletivo do livro<\/h3>\n\n\n\n<p>Sem recursos para cobrir os custos de pesquisa, reda\u00e7\u00e3o, edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o do livro, Niara e Vanessa deram in\u00edcio a uma&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.catarse.me\/narrativadefeminicidios\">c<strong>ampanha no Catarse<\/strong><\/a>&nbsp;para arrecadar R$ 34.483 at\u00e9 o dia 2 de abril. At\u00e9 agora, as jornalistas levantaram menos da metade do valor necess\u00e1rio para fazer a obra chegar \u00e0s livrarias do pa\u00eds.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As autoras defendem que a produ\u00e7\u00e3o do livro ocorre num momento \u201cabsolutamente oportuno\u201d frente ao contexto de&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/cidadania\/2020\/04\/covid-19-homens-agressivos-violencia-contra-mulher-machismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>pandemia que agravou a ocorr\u00eancia de viol\u00eancia contra as mulheres<\/strong><\/a>. Al\u00e9m disso, Niara e Vanessa observam que mesmo com a Lei 13.104, de 2015, que tipificou o feminic\u00eddio como qualificador do crime de homic\u00eddio pela sua natureza machista e mis\u00f3gina, a imprensa ainda reproduz uma narrativa que n\u00e3o aprofunda, reduz e at\u00e9 repassa a gravidade do assassinato \u00e0s v\u00edtimas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c9 tudo muito relacionado \u00e0 posse. O que aparece muito na narrativa da m\u00eddia \u00e9 \u2018matou por ci\u00fames\u2019. Outra frase corriqueira nas mat\u00e9rias \u00e9 \u2018 matou por n\u00e3o aceitar o fim do relacionamento\u2019. At\u00e9 matou por \u2018leg\u00edtima defesa da honra&#8217;\u201d, cita Vanessa. Os deslizes, no geral, s\u00e3o expostos principalmente nos t\u00edtulos e manchetes das mat\u00e9rias. Entre os casos famosos e an\u00f4nimos que as jornalistas acompanham est\u00e1, por exemplo, o feminic\u00eddio da ju\u00edza Viviane Vieira do Amaral Arronenzi. Morta a facadas pelo ex-marido, Paulo Arronenzi, na v\u00e9spera do Natal de 2020.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2>Sem voz, mem\u00f3ria e revitimizada<\/h2>\n\n\n\n<p>Num primeiro momento de repercuss\u00e3o do crime, grandes portais de not\u00edcias deram destaque maior ao fato de a v\u00edtima ter aberto m\u00e3o da escolta e \u00e0 sua profiss\u00e3o do que ao pr\u00f3prio crime. As manchetes eram na linha do \u201cdepois de abrir m\u00e3o da escolta, ju\u00edza \u00e9 assassinada pelo ex-marido na frente das filhas\u201d. \u201cOu seja, a primeira frase desse t\u00edtulo j\u00e1 culpabiliza essa mulher. Ela abriu m\u00e3o da escolta, da medida protetiva, t\u00e1 vendo? Por isso que ela morreu\u201d, reprova Vanessa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A revitimiza\u00e7\u00e3o se repete quando a mulher aparece nas manchetes como agente da a\u00e7\u00e3o com verbo na voz passiva. Como quando \u00e9 noticiado \u201cmulher \u00e9 morta\u201d. Na pr\u00e1tica, \u00e9 como se o pr\u00f3prio&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/cidadania\/2017\/01\/especialistas-apontam-a-influencia-da-midia-no-discurso-de-odio-contra-as-mulheres-5052\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">jornalismo estivesse \u201cjustificando\u201d a viol\u00eancia contra a mulher<\/a>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o se aprofunda na raz\u00e3o do feminic\u00eddio. O que \u00e9 machismo e misoginia? \u00c9 a perspectiva do homem sobre a mulher, observando essa mulher como um objeto de posse. Ent\u00e3o todas as vezes que ela o desagrada de alguma maneira, ele acredita que ele \u00e9 o dono dela. E que ele pode dispor como quiser do corpo, da vida, dignidade e presen\u00e7a f\u00edsica neste plano. E uma outra coisa que acontece quando voc\u00ea coloca na narrativa que \u2018matou por ci\u00fames\u2019, por \u2018n\u00e3o aceitar o fim do relacionamento\u2019, por \u2018leg\u00edtima defesa da honra\u2019, \u00e9 que de alguma maneira voc\u00ea co-responsabiliza a mulher pela viol\u00eancia que ela sofreu e sua pr\u00f3pria morte. Porque no subtexto \u00e9 como se ela tivesse feito alguma coisa para merecer aquilo\u201d, descreve Vanessa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3>Machista, racista e desigual<\/h3>\n\n\n\n<p>\u201cO \u2018ela abriu m\u00e3o da escolta\u2019 e por isso ela morreu, compartilha tamb\u00e9m com essa mulher v\u00edtima a responsabilidade pela viol\u00eancia que ela sofreu. E n\u00e3o coloca de fato o que est\u00e1 na raiz do feminic\u00eddio, que \u00e9 a objetifica\u00e7\u00e3o profunda da mulher. A maneira como os t\u00edtulos s\u00e3o constru\u00eddos, como \u2018mulher \u00e9 morta\u2019, \u00e9 quase uma coisa indeterminada. Diferente de quando voc\u00ea fala que ela foi assassinada. \u2018\u00c9 morta\u2019 pode ser por v\u00e1rias coisas\u201d, completa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Invariavelmente, nos \u00faltimos cinco anos, Niara e Vanessa tamb\u00e9m concluem que a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/cidadania\/2017\/01\/especialistas-apontam-a-influencia-da-midia-no-discurso-de-odio-contra-as-mulheres-5052\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>ilustra\u00e7\u00e3o do feminic\u00eddio<\/strong><\/a>&nbsp;\u00e9, em geral, marcada pelo rosto da v\u00edtima. A conduta da imprensa tamb\u00e9m esbarra em outras chagas sociais do pa\u00eds, como o racismo, a transfobia e a desigualdade socioecon\u00f4mica. Que privilegiam a divulga\u00e7\u00e3o de feminic\u00eddios no caso de mulheres brancas e poupa menos a imagem de homens negros quando violadores. Enquanto que, na maior parte das mat\u00e9rias, feminicidas brancos t\u00eam sua imagem preservada e o assassinato de mulheres negras, trans, travestis e pobres ganham pouco ou nenhum destaque e informa\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTem v\u00e1rias explica\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas\u201d, adverte tamb\u00e9m Vanessa sobre esse retrato limitado do feminic\u00eddio, como o uso do \u201csuposto\u201d . \u201cObviamente um homem acusado de um crime, nesse caso um feminicida, ele s\u00f3 \u00e9 considerado culpado, ou de fato um assassino, depois que ele \u00e9 julgado. E essa \u00e9 uma prerrogativa legal que claro que a gente defende que seja resguardada. Mas quando voc\u00ea usa o suposto numa acusa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia, de um caso de um feminic\u00eddio, voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 colocando a vers\u00e3o da v\u00edtima em d\u00favida\u201d, contesta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3>Novas escolhas<\/h3>\n\n\n\n<p>\u201cVamos conversar com juristas para entender melhor isso. Se tamb\u00e9m a imagem do homem criminoso estampada pode ferir alguma quest\u00e3o legal. E ao mesmo tempo, por que esse homem \u00e9 t\u00e3o resguardado e essa mulher, que sequer est\u00e1 mais aqui, n\u00e3o? Por que a ela n\u00e3o \u00e9 garantida essa prote\u00e7\u00e3o?\u201d, questiona a jornalista. \u201cA nossa ideia \u00e9 propor tanto com rela\u00e7\u00e3o ao \u2018suposto\u2019 e outras escolhas de palavras e frases, e \u00e0 pr\u00f3pria quest\u00e3o do uso da imagem, o \u2018refraseamento\u2019, para que o jornalista e o ve\u00edculo possam garantir as prerrogativas legais, se resguardar juridicamente de qualquer processo, mas sem colocar a palavra da v\u00edtima em d\u00favida\u201d, justifica Vanessa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tanto ela como Niara buscam entender nessa fase de pesquisa o porqu\u00ea da imprensa no geral optar por esse caminho que pode refor\u00e7ar a viol\u00eancia contra a mulher. Empiricamente, por\u00e9m, elas j\u00e1 veem rela\u00e7\u00e3o com a pr\u00f3pria desigualdade de g\u00eanero na forma\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho das reda\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3>Desigualdade de g\u00eanero nas reda\u00e7\u00f5es<\/h3>\n\n\n\n<p>Uma pesquisa da Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Jornalistas (Fenaj) sobre o perfil desses profissionais, realizada em 2012, \u2013 e que deve ser atualizada neste ano \u2013, indicava que as mulheres j\u00e1 eram a maior parte da categoria (64%). Mas, apesar da predomin\u00e2ncia feminina, os jornalistas homens ocupavam a maioria absoluta dos cargos de chefia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 uma an\u00e1lise aprofundada, mas notamos que mat\u00e9rias escritas por mulheres sobre esses assuntos costumam ser mais sens\u00edveis ao pr\u00f3prio relato. S\u00f3 que em geral, mesmo com essas mulheres sendo autoras dessas mat\u00e9rias mais sens\u00edveis, elas n\u00e3o t\u00eam autonomia sobre os t\u00edtulos. E a\u00ed os t\u00edtulos, que s\u00e3o editados por profissionais homens, correm mais risco de reproduzirem uma narrativa mis\u00f3gina e machista\u201d, avalia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA chefia de homens pode sim impactar na maneira como os relatos de feminic\u00eddio e todas as viol\u00eancias contra as mulheres, de uma maneira geral, s\u00e3o noticiados na m\u00eddia tradicional, pincipalmente. Porque a m\u00eddia alternativa, progressista, tem um cuidado maior, embora a gente consiga ver e identificar questionamentos e incorre\u00e7\u00f5es em t\u00edtulos tamb\u00e9m dessas m\u00eddias. Mas pelo menos elas est\u00e3o mais ligadas na quest\u00e3o, procurando melhorar\u201d, comenta Vanessa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h3>Como a m\u00eddia pode contribuir?<\/h3>\n\n\n\n<p>A proposta, entretanto, segundo as jornalistas, n\u00e3o \u00e9 que os homens se isentem da cobertura da viol\u00eancia de g\u00eanero como um assunto que n\u00e3o \u00e9 de sua al\u00e7ada. O objetivo da produ\u00e7\u00e3o do livro&nbsp;<em>Narrativas de Feminic\u00eddios<\/em>&nbsp;\u00e9 mesmo entender porque essas reflex\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o aprofundadas e h\u00e1 resist\u00eancia \u00e0s cr\u00edticas nas reda\u00e7\u00f5es. J\u00e1 que apesar de toda a luta do movimento feminista, os ve\u00edculos jornal\u00edsticos continuam reproduzindo uma cobertura inapropriada, j\u00e1 advertida em&nbsp;<a href=\"https:\/\/assets-institucional-ipg.sfo2.cdn.digitaloceanspaces.com\/2019\/12\/IPG_RelatorioMonitoramentoCoberturaFeminicidioViolenciaSexual2019.pdf\">relat\u00f3rio da Ag\u00eancia Patr\u00edcia Galv\u00e3o<\/a>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dois anos atr\u00e1s, com base em 2.481 not\u00edcias de feminic\u00eddio, o instituto identificou que os relatos eram majoritariamente factuais, individualizados e com abordagem policial. E uma minoria apenas, 6,25% deles, questionavam as falhas do sistema de prote\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o de direitos que tornaria as v\u00edtimas em mortes evit\u00e1veis.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTemos essa indaga\u00e7\u00e3o, porque teve produ\u00e7\u00f5es que foram feitas e ningu\u00e9m acolheu?. Por que temos dispositivos legais, Delegacias da Mulher, o Ligue 180, mas essa viol\u00eancia n\u00e3o diminui?. Ou ainda que racionalmente as pessoas entendam isso como uma aberra\u00e7\u00e3o, porque se continua praticando a viol\u00eancia contra a mulher? Ou como a m\u00eddia pode contribuir para que essa realidade horr\u00edvel e t\u00e3o triste, desesperadora e desalentadora do feminic\u00eddio mude. O que queremos \u00e9 uma reda\u00e7\u00e3o sens\u00edvel, realmente comprometida em noticiar da melhor maneira poss\u00edvel\u201d, finaliza Vanessa Rodrigues em busca de justi\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O link para quem puder contribuir e ajudar na campanha \u00e9&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.catarse.me\/narrativadefeminicidios\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.catarse.me\/narrativadefeminicidios<\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe  id=\"_ytid_69196\"  width=\"900\" height=\"506\"  data-origwidth=\"900\" data-origheight=\"506\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0n5ffa17F5E?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;modestbranding=0&#038;rel=1&#038;fs=1&#038;playsinline=0&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>_________________________________________________________________________________________<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.cut.org.br\/busca?busca=%22tag%3A+machismo%22\">machismo<\/a>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cut.org.br\/busca?busca=%22tag%3Ag%C3%AAnero%22\">g\u00eanero<\/a>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cut.org.br\/busca?busca=%22tag%3Aluta+da+mulheres%22\">luta da mulheres<\/a>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cut.org.br\/busca?busca=%22tag%3Aviol%C3%AAncia+de+g%C3%AAnero%22\">viol\u00eancia de g\u00eanero<\/a>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cut.org.br\/busca?busca=%22tag%3A+feminic%C3%ADdios%22\">feminic\u00eddios<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrito por: Clara Assun\u00e7\u00e3o | RBA\u00a0 Ainda hoje, a jornalista e escritora Vanessa Rodrigues se incomoda com a forma que o assassinato da auxiliar de servi\u00e7os hospitalares, Claudia Silva Ferreira,<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":48471,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"categories":[40],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/48468"}],"collection":[{"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=48468"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/48468\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/48471"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=48468"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=48468"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=48468"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}