{"id":46119,"date":"2020-11-20T11:02:00","date_gmt":"2020-11-20T14:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinergiacut.org.br\/?p=46119"},"modified":"2020-11-20T11:02:02","modified_gmt":"2020-11-20T14:02:02","slug":"racismo-estrutural-segrega-negros-no-mercado-de-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/?p=46119","title":{"rendered":"Racismo estrutural segrega negros no mercado de trabalho"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"caps\"><strong>Escrito por: Andre Accarini<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 2019, o sal\u00e1rio m\u00e9dio de trabalhadores negros foi 45% menor do que do que o dos brancos, de acordo com a Pesquisa Nacional Por Amostra de Domic\u00edlios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). A&nbsp;mesma pesquisa mostra que entre as mulheres negras a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 pior ainda. A m\u00e9dia salarial para elas chegou a ser a 70% menor do que das mulheres brancas.<\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00e3o importa o grau de escolaridade, mesmo negros com curso superior ganham menos que os brancos. De acordo com uma pesquisa do Instituto Locomotiva, o sal\u00e1rio m\u00e9dio de homens n\u00e3o negros com ensino superior em 2019 ficou em R$ 7.033,00, enquanto o dos negros ficou em R$ 4.834,00, uma diferen\u00e7a de 31% a menos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 as mulheres negras com forma\u00e7\u00e3o superior receberam no ano passado sal\u00e1rio m\u00e9dio de R$ 3.712,00 contra R$ 4.760,00 das mulheres brancas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os negros tamb\u00e9m ocupam menos os cargos de diretoria. De acordo com uma pesquisa do site Vagas.com, somente 0,7% dos cargos mais altos de empresas s\u00e3o ocupados pelos negros, que ainda de acordo com a pesquisa, ocupam 47,6% dos trabalhos operacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dados da pesquisa apontam outras desigualdades. O ano de 2019 fechou com \u00edndice geral de desemprego em 13,3%. No recorte racial, a taxa chegou a 17,8% entre os pretos e 15,4% entre os pardos. Para os brancos ficou em 10,4%. E mais: o percentual de pretos ou pardos na informalidade chegou a 47,4% em 2019, enquanto entre os trabalhadores brancos foi de 34,5%.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de todos esses n\u00fameros comprovando a enorme desigualdade, muitos devem ser perguntar: por que o negro ocupa postos prec\u00e1rios e de menor renda no mercado de trabalho e por que o desemprego atinge mais a popula\u00e7\u00e3o negra do que a n\u00e3o negra?<\/p>\n\n\n\n<p>Para ter a resposta \u00e9 preciso estudar a hist\u00f3ria e analisar as ra\u00edzes do racismo no Brasil, dizem os estudiosos do tema.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao assinar a Lei \u00c1urea, em 13 de maio de 1888, a Princesa Isabel, teoricamente, colocou fim \u00e0 escravid\u00e3o no Brasil. O que n\u00e3o se ensina na maioria das escolas desde ent\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o houve a cria\u00e7\u00e3o de nenhuma medida de prote\u00e7\u00e3o social aos escravos, que estariam em liberdade e jogados \u00e0 pr\u00f3pria sorte.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem trabalho nem renda para sobreviver, as mulheres tiveram de se sujeitar a continuar servindo aos fazendeiros em servi\u00e7os dom\u00e9sticos, por pequena remunera\u00e7\u00e3o, ou em troca de comida e casa para morar. Os homens foram simplesmente descartados e jogados \u00e0 margem da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Vem da\u00ed o termo \u2018marginalidade\u2019, j\u00e1 que esses homens praticavam delitos para poder comer e garantir um m\u00ednimo de sobreviv\u00eancia. E com o passar dos tempos, estigmatizados, os negros continuaram submetidos \u00e0s oportunidades de trabalho mais prec\u00e1rias, na grande maioria, trabalhos bra\u00e7ais.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosana Fernandes, secret\u00e1ria-adjunta de Combate ao Racismo da CUT, explica que a heran\u00e7a da escravid\u00e3o ficou e hoje a popula\u00e7\u00e3o negra ainda convive com a discrimina\u00e7\u00e3o, que se reflete diretamente no mercado de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o fim da escravid\u00e3o, a popula\u00e7\u00e3o negra foi jogada \u00e0 sociedade, nas periferias, sem nenhum processo de inser\u00e7\u00e3o social e com o passar dos anos, infelizmente, o que vemos \u00e9 a naturaliza\u00e7\u00e3o dessas situa\u00e7\u00f5es- Rosana Fernandes<\/p>\n\n\n\n<p><br>Para comprovar que esta realidade persiste, \u00e9 poss\u00edvel fazer o \u2018teste do pesco\u00e7o\u2019, proposto pela ativista Luh de Souza e idealizado pelo professor Francisco Antero no projeto Hist\u00f3ria Preta \u2013 Fatos e Fotos.&nbsp; De forma l\u00fadica, o teste prop\u00f5e que as pessoas \u201cmetam o pesco\u00e7o\u201d em espa\u00e7os para contar quantos negros ali est\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cMeta o pesco\u00e7o dentro das joelheiras e conte quantos negros e negras s\u00e3o balconistas. V\u00e1 a escolas particulares como Objetivo, Dante Alighieri, entre outras, e espiche o pesco\u00e7o nas salas de aulas para contar quantos negros h\u00e1. Conte tamb\u00e9m quantos professores. V\u00e1 a hospitais como S\u00edrio Liban\u00eas e conte nos quartos quantos pacientes s\u00e3o negros (&#8230;) e quantos negros m\u00e9dicos h\u00e1\u201d<\/em>, diz trecho do artigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Outras situa\u00e7\u00f5es ainda s\u00e3o citadas como \u2018meter o pesco\u00e7o\u2019 nas cadeias, orfanatos, casas de corre\u00e7\u00e3o para menores e contar quantos s\u00e3o brancos, e&nbsp;<em>\u201cespichar o pesco\u00e7o numa reuni\u00e3o dos partidos PSDB e DEM, como exemplo, e contar quantos pol\u00edticos s\u00e3o negros desde a funda\u00e7\u00e3o\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA realidade comprova que os negros ocupam, de fato, postos de trabalho sem prote\u00e7\u00e3o social, com menores valores salariais, sem direitos, empregos em que a opress\u00e3o e ass\u00e9dio moral e sexual est\u00e3o representes\u201d, diz Rosana.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela afirma tamb\u00e9m que os negros s\u00e3o os primeiros a perder o emprego em tempos de crise econ\u00f4mica, em especial as mulheres negras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>MARCELLO CASAL JR\/AG\u00caNCIA BRASIL<a href=\"https:\/\/admin.cut.org.br\/system\/uploads\/ck\/negores%20casal.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><\/a>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h4><strong>Pandemia<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>A desigualdade ficou ainda mais acentuada por causa da pandemia do novo coronav\u00edrus (Covid-19), que sem pol\u00edticas efetivas de prote\u00e7\u00e3o ao emprego e a renda por parte do governo de Jair Bolsonaro (ex-PSL), acabou aumentando os \u00edndices de desemprego.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com os dados da Pnad Continua, ao final do 4\u00b0 trimestre de 2020, cerca de 7,4 milh\u00f5es de trabalhadores negros \u2013 homens e mulheres &#8211; sa\u00edram da for\u00e7a de trabalho. Eles deixaram de procurar emprego por n\u00e3o acreditar na possibilidade de recoloca\u00e7\u00e3o. Entre os brancos, o n\u00famero foi bem menor: 2,7 milh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Dos oito milh\u00f5es de pessoas que perderam o emprego no primeiro semestre deste ano, 6,3 milh\u00f5es eram negros e negras, o representa 71% do total.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa realidade escancara o preconceito, a posi\u00e7\u00e3o de desprote\u00e7\u00e3o social e a falta de pol\u00edticas p\u00fablicas efetivas que promovam igualdade social.<\/p>\n\n\n\n<h4><strong>N\u00e3o pode ser normal<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Para Rosana Fernandes, o racismo estrutural e velado no Brasil submete a sociedade a uma naturaliza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es desiguais para os negros.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAs pessoas acham que \u00e9 tudo normal, que na sociedade \u00e9 natural discriminar pela cor da pele, que \u00e9 natural o negro receber menos e que os trabalhadores negros estejam em postos mais precarizados\u201d, ela diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosana explica tamb\u00e9m que essa forma de enxergar essas situa\u00e7\u00f5es como normais s\u00e3o causadas por uma democracia racial que n\u00e3o existe no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA sociedade tem que enxergar que n\u00e3o \u00e9 democr\u00e1tico, n\u00e3o \u00e9 natural, n\u00e3o \u00e9 justo haver diferen\u00e7a nas oportunidades. Quando algu\u00e9m branco vai disputar uma vaga de trabalho com um negro, fica muito evidente. Na grande maioria dos casos, quem vai levar vantagem \u00e9 o branco\u201d, afirma Rosana.<\/p>\n\n\n\n<h4><strong>Luta di\u00e1ria e constante de todos<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Enfrentar o racismo n\u00e3o pode ser uma luta somente da popula\u00e7\u00e3o negra, diz a dirigente. \u201cTem que ser tamb\u00e9m daquelas pessoas que n\u00e3o s\u00e3o negras, dos brancos, para que, de fato, a gente mude a sociedade. E para isso, tem que mudar as estruturas, alterar a ideia sobre racismo e s\u00f3 assim construiremos sociedade igualit\u00e1ria, em que todos sejam respeitados sem que levem em considera\u00e7\u00e3o se \u00e9 mais ou menos capacitado pela cor da pele\u201d, ela pontua.<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Edi\u00e7\u00e3o: Marize Muniz<\/strong><\/em><a href=\"https:\/\/www.cut.org.br\/busca?busca=%22tag%3AMercado+de+Trabalho%22\">Mercado de Trabalho<\/a><a href=\"https:\/\/www.cut.org.br\/busca?busca=%22tag%3Aracismo%22\">racismo<\/a><a href=\"https:\/\/www.cut.org.br\/busca?busca=%22tag%3Apreconceito%22\">preconceito<\/a><a href=\"https:\/\/www.cut.org.br\/busca?busca=%22tag%3Aescravid%C3%A3o%22\">escravid\u00e3o<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrito por: Andre Accarini Em 2019, o sal\u00e1rio m\u00e9dio de trabalhadores negros foi 45% menor do que do que o dos brancos, de acordo com a Pesquisa Nacional Por Amostra<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":46120,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"categories":[40],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/46119"}],"collection":[{"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=46119"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/46119\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/46120"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=46119"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=46119"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=46119"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}