{"id":45955,"date":"2020-11-13T16:48:13","date_gmt":"2020-11-13T19:48:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinergiacut.org.br\/?p=45955"},"modified":"2020-11-13T16:48:15","modified_gmt":"2020-11-13T19:48:15","slug":"violencia-policial-contra-jovens-negros-escancara-o-racismo-estrutural-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/?p=45955","title":{"rendered":"Viol\u00eancia policial contra jovens negros escancara o racismo estrutural no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"caps\">Agatha Vit\u00f3ria Sales tinha 8 anos, Eduardo de Jesus, 10 anos, Jo\u00e3o Pedro Matos, 14 anos e Guilherme Silva Guedes, 15 anos. Todos eram negros. Todos moravam em comunidades pobres. Todos foram mortos pela pol\u00edcia brasileira e, muito cedo, passaram a fazer parte de uma estat\u00edstica cruel no Brasil que evid\u00eancia o racismo estrutural: a viol\u00eancia policial.<\/p>\n\n\n\n<p>O racismo estrutural se expressa no genoc\u00eddio escancarado da juventude negra e em diversas formas de desigualdade. Na hierarquia de g\u00eanero, por exemplo, as mulheres negras s\u00e3o as que mais morrem e sofrem com a viol\u00eancia dom\u00e9stica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A mortalidade de jovens negros no Brasil \u00e9 superior a de pa\u00edses em &nbsp;guerra civil no mundo. S\u00e3o 63 mil jovens brasileiros mortos por ano, sendo mais de 70% s\u00e3o negros.<\/p>\n\n\n\n<p>A lista de pessoas negras v\u00edtimas dessa trag\u00e9dia \u00e9 extensa no Brasil. De acordo com o Atlas da Viol\u00eancia 2020, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea) e pelo F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica (FBSP), os casos de homic\u00eddio de pessoas negras (pretas e pardas) aumentaram 11,5% em uma d\u00e9cada. J\u00e1 na contram\u00e3o desses dados, entre 2008 e 2018, per\u00edodo avaliado, a taxa entre pessoas n\u00e3o negras (brancos, amarelo e \u00edndio) fez o caminho inverso, apresentou queda de 12,9%.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As cores e a classe social da trag\u00e9dia brasileira<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A pequena Agatha morava Complexo do Alem\u00e3o e foi morta com um tiro nas costas disparado por um Policial Militar (PM). Eduardo, tamb\u00e9m do Alem\u00e3o, foi morto na porta de casa por um tiro disparado por policiais. Jo\u00e3o Pedro, do Complexo do Salgueiro, perdeu a vida com um tiro na barriga ap\u00f3s uma opera\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal e da Pol\u00edcia Civil. Guilherme, na Vila Clara, em S\u00e3o Paulo, foi encontrado morto em um terreno com dois tiros na cabe\u00e7a, em Diadema, cidade do Grande ABC, disparados tamb\u00e9m por um PM.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o soci\u00f3logo e pesquisador do N\u00facleo Afro do Centro Brasileiro de An\u00e1lise e Planejamento (Cebrap), Paulo Ramos, a alta taxa de homic\u00eddio entre jovens negros ainda \u00e9 resqu\u00edcio da coloniza\u00e7\u00e3o nos dias de hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA gente est\u00e1 falando de guerra civil, se a gente for comparar a viol\u00eancia do Brasil com outros pa\u00edses do mundo, o Brasil mata 63 mil pessoas por ano. H\u00e1 20 anos matava 40 mil. Em 1980, a taxa de homic\u00eddio era de 20 mil pessoas por ano e j\u00e1 era um absurdo na d\u00e9cada. \u00c9 h\u00e1 uma raz\u00e3o colonial por tr\u00e1s disso\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>Mito da democracia racial e genoc\u00eddio denunciado por Abdias do Nascimento<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>No Brasil, pa\u00eds que construiu a mitologia da democracia racial (de que a na\u00e7\u00e3o vivia em harmonia entre brancos e negros) escondeu o racismo, a discrimina\u00e7\u00e3o, o abandono e a viol\u00eancia contra a popula\u00e7\u00e3o negra por muito tempo. Basta dizer que um ano ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o surgiu a Lei da Vadiagem, em 1889, que tinha como alvo o ex-escravo que n\u00e3o tinha emprego nem moradia.<\/p>\n\n\n\n<p>Tanto o mito da democracia racial como genoc\u00eddio negro foram denunciados pelo escritor, dramaturgo e ativista do Movimento Negro Unificado (MNU) Abdias Nascimento na d\u00e9cada de 1970. Em 1978, Abdias publicou o livro \u201cO genoc\u00eddio do negro brasileiro\u201d, que se transformou em um s\u00edmbolo de den\u00fancia do racismo no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Paulo Ramos, o termo genoc\u00eddio para se referir \u00e0 morte de jovens negros tem v\u00e1rios significados, uma disputa atrav\u00e9s dos n\u00fameros.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cIncialmente foi usado para falar de conflitos na Europa no come\u00e7o do s\u00e9culo 20. Atualmente, est\u00e1 associado no imagin\u00e1rio social ao nazismo, mas a ideia de genoc\u00eddio \u00e9 levantada pelo movimento negro para falar n\u00e3o s\u00f3 da viol\u00eancia policial, mas tamb\u00e9m de outros temas negros que est\u00e3o associados no Brasil como: educa\u00e7\u00e3o, mundo do trabalho, seguran\u00e7a p\u00fablica, encarceramento em massa e todo o sistema de justi\u00e7a\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;\u201cA gente diz que \u00e9 um genoc\u00eddio porque ele organizado pelo estado, s\u00e3o as pol\u00edticas do estado a partir da sua concep\u00e7\u00e3o racista que orquestra o assassinato da sua juventude, da popula\u00e7\u00e3o negra\u201d, complementa Anatalina Louren\u00e7o, secret\u00e1ria de Combate ao Racismo da CUT.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 necropol\u00edtica, uma a\u00e7\u00e3o do Estado de forma pensada a partir das suas pol\u00edticas que determina quem vive e quem morre- Anatalina Louren\u00e7o<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>Alvo frequente de den\u00fancias do movimento negro<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>O genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o negra tem sido alvo frequente de den\u00fancias por ativistas do movimento negro em \u00f3rg\u00e3os internacionais. Entretanto, \u00e9 no grito dos moradores das periferias&nbsp;que&nbsp;fica&nbsp;evidente&nbsp;que popula\u00e7\u00e3o continua a ser&nbsp;executada pelo Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c9 em virtude disso que o movimento negro reivindica o termo o genoc\u00eddio\u201d, explica Paulo Ramos<\/p>\n\n\n\n<p>Os dados da pesquisa do Ipea chamam a aten\u00e7\u00e3o para os jovens entre as v\u00edtimas de homic\u00eddios ocorridos em 2018. Ao todo, 30.873 jovens na faixa et\u00e1ria entre 15 e 29 anos foram mortos, o que representa 53,3% dos registros.&nbsp;Entre 2008 a 2018, houve um aumento de 13,3% na taxa de jovens mortos, que passou de 53,3 homic\u00eddios a cada 100 mil jovens para 60,4.<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>Mulheres negras<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Essa disparidade racial e a soma de vulnerabilidades \u00e9 mais evidente quando se trata de mulheres, que s\u00e3o as principais v\u00edtimas de homic\u00eddio no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o Atlas da Viol\u00eancia 2020, 68% das mulheres assassinadas no Brasil eram negras. De acordo com o levantamento, uma mulher \u00e9 assassinada a cada duas horas no Brasil \u2014foram 4.519 mulheres assassinadas em 2018, um \u00edndice de 4,3 a cada 100 mil mulheres que moram no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre 2008 e 2018, em uma d\u00e9cada, os homic\u00eddios de mulheres negras aumentaram 12,4%, enquanto os homic\u00eddios entre mulheres brancas ca\u00edram 11,7%.<\/p>\n\n\n\n<p>Para especialistas, as mulheres negras t\u00eam mais dificuldade em denunciar crimes e acessar servi\u00e7os p\u00fablicos de prote\u00e7\u00e3o, mesmo durante a pandemia do novo coronav\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosana Fernandes, secret\u00e1ria-Adjunta de Combate ao Racismo da CUT, lembra que a viol\u00eancia contra a mulher negra se sustenta com base em tr\u00eas vertentes: o preconceito de g\u00eanero, o de ra\u00e7a, e o de classe, uma vez que a maioria das mulheres negras \u00e9 pobre.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEm nossa pir\u00e2mide social elas s\u00e3o as mais vulner\u00e1veis\u201d, comenta a dirigente, que continua: \u201cAt\u00e9 um tempo atr\u00e1s, as negras sequer eram consideradas como seres humanos. Seus corpos s\u00f3 serviam como fonte de hipersexualiza\u00e7\u00e3o. Os dados da viol\u00eancia s\u00e3o parte da heran\u00e7a hist\u00f3rica, que recai sobre elas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro n\u00famero que justifica a afirma\u00e7\u00e3o de Rosana em torno do racismo e homic\u00eddios de mulheres, \u00e9 que os estados que tiveram as mais altas taxas de homic\u00eddios entre a popula\u00e7\u00e3o negra est\u00e3o localizados nas regi\u00f5es Norte e Nordeste, com destaque para Roraima (87,5 mortos para cada 100 mil habitantes), Rio Grande do Norte (71,6), Cear\u00e1 (69,5), Sergipe (59,4) e Amap\u00e1 (58,3).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTem a ver com ac\u00famulo de desigualdade que recai sobre a popula\u00e7\u00e3o negra e as mulheres negras. \u00c9 efeito direto do racismo que elas est\u00e3o envolvidas\u201d, finaliza o soci\u00f3logo Paulo Ramos, que coordena o Projeto Reconex\u00e3o Periferias do Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Escrito por: Walber Pinto<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agatha Vit\u00f3ria Sales tinha 8 anos, Eduardo de Jesus, 10 anos, Jo\u00e3o Pedro Matos, 14 anos e Guilherme Silva Guedes, 15 anos. 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