{"id":41329,"date":"2020-05-07T14:23:23","date_gmt":"2020-05-07T17:23:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinergiacut.org.br\/?p=41329"},"modified":"2020-05-07T14:23:23","modified_gmt":"2020-05-07T17:23:23","slug":"em-duas-semanas-numero-de-negros-mortos-por-coronavirus-e-cinco-vezes-maior-no-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/?p=41329","title":{"rendered":"Em duas semanas, n\u00famero de negros mortos por coronav\u00edrus \u00e9 cinco vezes maior no pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<div class=\"dd-m-display dd-m-display--top-30 dd-m-background-stable\">\n<div class=\"wrap\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12\">\n<div class=\"dd-l-content dd-l-content--medium\">\n<div class=\"dd-m-image__group__by-whom\">Em duas semanas, a quantidade de pessoas negras que morrem por Covid-19 no Brasil quintuplicou. De 11 a 26 de abril, mortes de pacientes negros confirmadas pelo Governo Federal foram de pouco mais de 180 para mais de 930. Al\u00e9m disso, a quantidade de brasileiros negros hospitalizados por S\u00edndrome Respirat\u00f3ria Aguda Grave (SRAG) causada por coronav\u00edrus aumentou para 5,5 vezes.<\/div>\n<div class=\"dd-m-editor\">\n<p class=\"caps\">J\u00e1 o aumento de mortes de pacientes brancos foi bem menor: nas mesmas duas semanas, o n\u00famero chegou a pouco mais que o triplo. E o n\u00famero de brasileiros brancos hospitalizados aumentou em propor\u00e7\u00e3o parecida.<\/p>\n<p>A explos\u00e3o de casos de negros que s\u00e3o hospitalizados ou morrem por Covid-19 tem escancarado as desigualdades raciais no Brasil: entre negros, h\u00e1 uma morte a cada tr\u00eas hospitalizados por SRAG causada pelo coronav\u00edrus; j\u00e1 entre brancos, h\u00e1 uma morte a cada 4,4 hospitaliza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/em-duas-semanas-numero-de-negros-mortos-por-coronavirus-e-cinco-vezes-maior-no-brasil.png\"><\/p>\n<p>Os dados s\u00e3o resultado de uma an\u00e1lise feita pela Ag\u00eancia P\u00fablica com base nos boletins epidemiol\u00f3gicos do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade que possuem informa\u00e7\u00f5es de ra\u00e7a e cor de interna\u00e7\u00f5es e mortes por coronav\u00edrus. O Governo Federal divulgou esses n\u00fameros atualizados apenas at\u00e9 26 de abril.<\/p>\n<p>Para cada morte em Moema, quatro morrem na Brasil\u00e2ndia<br \/>\nEm S\u00e3o Paulo, na maior cidade do pa\u00eds e a que conta maior n\u00famero de mortes por Covid-19, s\u00e3o os bairros onde a popula\u00e7\u00e3o negra est\u00e1 mais concentrada que trazem a maior quantidade de \u00f3bitos pela doen\u00e7a. Segundo a P\u00fablica apurou, dos dez bairros com maior n\u00famero absoluto de mortes causadas pelo coronav\u00edrus, oito t\u00eam mais negros que a m\u00e9dia de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>O bairro com maior n\u00famero absoluto de mortes \u00e9 a Brasil\u00e2ndia, com 103 casos. A regi\u00e3o tem cerca de 50% da popula\u00e7\u00e3o negra \u2014 a m\u00e9dia de S\u00e3o Paulo \u00e9 de 37%. No extremo oposto, o bairro com menos negros da cidade, Moema, teve 26 mortes. A m\u00e9dia de negros na regi\u00e3o \u00e9 de menos de 6%.<\/p>\n<p>Mesmo ajustando-se as mortes \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, os dois bairros t\u00eam realidades diferentes: em compara\u00e7\u00e3o ao n\u00famero de moradores de Moema, Brasil\u00e2ndia tem cerca de 25% a mais de mortes. A P\u00fablica considerou os dados do \u00faltimo Censo (2010) para os c\u00e1lculos de popula\u00e7\u00e3o e ra\u00e7a\/cor dos moradores.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/em-duas-semanas-numero-de-negros-mortos-por-coronavirus-e-cinco-vezes-maior-no-brasil-infografico2.png\"><\/p>\n<p>Bairros da periferia e com mais moradores negros que a m\u00e9dia de S\u00e3o Paulo t\u00eam visto os casos de Covid-19 dispararem \u2014 e com eles, as mortes. O Jardim \u00c2ngela, bairro com maior porcentagem de negros de toda a cidade, viu as mortes por coronav\u00edrus quase que triplicarem em cerca de duas semanas. Graja\u00fa, Parelheiros, Itaim Paulista, Jardim Helena, Cap\u00e3o Redondo e Pedreira, todos bairros com maioria da popula\u00e7\u00e3o negra, mais que dobraram as mortes por Covid-19 nesse mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p>O avan\u00e7o do coronav\u00edrus na periferia de S\u00e3o Paulo vem encurtando a dist\u00e2ncia de mortes entre bairros mais ricos, onde surgiram os primeiros casos de Covid-19. Em 17 de abril, bairros com menos popula\u00e7\u00e3o negra que a m\u00e9dia da cidade tinham 13% a mais de mortes que as regi\u00f5es onde moram mais negros. Duas semanas depois, essa diferen\u00e7a caiu para 3%. Se a tend\u00eancia se mantiver, os bairros onde vivem mais negros que a m\u00e9dia da cidade devem ultrapassar os bairros onde vivem menos negros.<\/p>\n<p>O jornalista Lucas Veloso, cofundador da Ag\u00eancia Mural de Jornalismo das Periferias, mora em uma das principais avenidas de Guaianases, bairro localizado no extremo leste da cidade de S\u00e3o Paulo. Ele observa que o movimento de transeuntes no local aumentou nas \u00faltimas semanas, em compara\u00e7\u00e3o \u00e0 semana do dia 24 de mar\u00e7o, quando o governador Jo\u00e3o Doria (PSDB) instituiu a quarentena no estado. \u201cNas duas primeiras semanas [depois do an\u00fancio do decreto], as ruas estavam de fato mais desertas. O movimento da feira que acontece \u00e0s quartas, por exemplo, tinha ca\u00eddo muito. Havia poucas barracas, poucos feirantes. Mas depois da terceira e quarta semanas, percebi que isso mudou\u201d, relata.<\/p>\n<p>Segundo ele, parte da popula\u00e7\u00e3o local n\u00e3o conseguiu parar por quest\u00f5es de renda. \u201cMuitos dos que moram nas periferias fazem parte dos servi\u00e7os essenciais. Ent\u00e3o, o transporte p\u00fablico de manh\u00e3, na esta\u00e7\u00e3o de trem, n\u00e3o diminuiu tanto. S\u00e3o entregadores, enfermeiros, seguran\u00e7as. Ent\u00e3o, como \u00e9 um bairro pobre, de periferia, que muitas pessoas est\u00e3o sujeitas a subempregos, o bairro n\u00e3o consegue parar totalmente\u201d, analisa o jornalista.<\/p>\n<p>Agora, ele observa que at\u00e9 mesmo as pessoas que conseguiam ficar em casa relaxaram as restri\u00e7\u00f5es da quarentena. \u201cAs pessoas tinham a esperan\u00e7a, no come\u00e7o, de conseguir o aux\u00edlio emergencial do governo e n\u00e3o precisar sair de casa. S\u00f3 que tem todas essas burocracias que as pessoas n\u00e3o conseguiram resolver, muitas pessoas n\u00e3o t\u00eam qualidade de internet e n\u00e3o conseguiram baixar o aplicativo, a\u00ed o dinheiro do aux\u00edlio n\u00e3o vem. Isso tamb\u00e9m \u00e9 um fator que faz as pessoas voltarem \u00e0s ruas.\u201d<\/p>\n<p>Os locais onde vivem mais negros s\u00e3o justamente os com menor \u00cdndice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM). Os dez bairros com pior IDHM em S\u00e3o Paulo t\u00eam mais negros que a m\u00e9dia da cidade. J\u00e1 os dez com melhor IDHM t\u00eam menos negros que a m\u00e9dia. Nos dez bairros com maior n\u00famero absoluto de mortes, oito t\u00eam IDHM considerado m\u00e9dio, abaixo de 0,8. S\u00e3o justamente esses oito bairros onde a m\u00e9dia de moradores negros est\u00e1 acima da m\u00e9dia da cidade.<\/p>\n<p><strong>No Rio, bairros com mais negros que a m\u00e9dia da cidade j\u00e1 acumulam mais mortes<\/strong><\/p>\n<p>Na capital carioca, os bairros com mais negros que a m\u00e9dia da cidade j\u00e1 t\u00eam mais mortes em n\u00famero absoluto que os bairros com menos negros.<\/p>\n<p>O crescimento de casos na periferia e nas favelas levou essas regi\u00f5es a registrarem cada vez mais falecimentos. Atualmente, Campo Grande, com mais de 50% de moradores negros, \u00e9 o bairro com mais mortes. A regi\u00e3o passou Copacabana, que antes era o local com maior n\u00famero absoluto de falecidos pela Covid-19. Ap\u00f3s Copacabana, Bangu e Realengo, dois bairros com maioria da popula\u00e7\u00e3o negra, ocupam o 3 e 4\u00ba lugar com mais mortes na cidade.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/infograficem-duas-semanas-numero-de-negros-mortos-por-coronavirus-e-cinco-vezes-maior-no-brasil-infografico-03.png\"><\/p>\n<p>A Rocinha, maior favela da cidade, j\u00e1 conta nove mortes nos dados oficiais. M\u00e9dicos que atendem a comunidade contestam o n\u00famero e apontam que j\u00e1 haveria 22 mortes na favela.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre quantidade de casos confirmados e mortes tamb\u00e9m \u00e9 bastante diferente entre bairros ricos e pobres do Rio de Janeiro, o que pode apontar dificuldade de moradores das favelas e da periferia de fazerem exames. Na Rocinha, por exemplo, h\u00e1 mais que o dobro de mortes em rela\u00e7\u00e3o aos casos confirmados que no Leblon. Os bairros com mais casos confirmados s\u00e3o Copacabana e a Barra da Tijuca.<\/p>\n<p><strong>No Amazonas, com colapso do SUS, brancos sobrevivem mais que negros<\/strong><\/p>\n<p>No Amazonas, entre as pessoas que desenvolvem quadros graves da Covid-19, s\u00e3o mais frequentes mortes de negros que brancos. Segundo a P\u00fablica apurou, a cada 2,4 negros em estado grave, h\u00e1 uma morte. J\u00e1 entre brancos, uma morte foi registrada a cada 3,2 pacientes em situa\u00e7\u00e3o grave.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/infograficem-duas-semanas-numero-de-negros-mortos-por-coronavirus-e-cinco-vezes-maior-no-brasil-infografico-4.png\"><\/p>\n<p>O estado, que foi o primeiro a ter lota\u00e7\u00e3o m\u00e1xima de unidades de terapia intensiva para pacientes com Covid-19, tem registrado um aumento mais expressivo entre negros em estado grave que entre brancos. No final de abril, em menos de uma semana, a quantidade de pacientes negros em situa\u00e7\u00e3o grave mais que dobrou.<\/p>\n<p>A maioria absoluta das mortes no Amazonas s\u00e3o de negros: mais de 13 negros morreram para cada falecimento de branco. A secretaria de sa\u00fade j\u00e1 registrou cerca de 850 doentes negros em situa\u00e7\u00e3o grave e mais de 340 mortes. J\u00e1 entre brancos, foram 81 casos graves e 25 mortes. Os dados de ra\u00e7a e cor foram atualizados em 29 de abril.<\/p>\n<p><strong>Minist\u00e9rio da Sa\u00fade diz que n\u00e3o h\u00e1 estudos que apontem ra\u00e7a como fator de risco<\/strong><\/p>\n<p>Apesar dos dados mostrarem que negros tiveram maior aumento de \u00f3bitos e registram mais mortes entre hospitalizados, o Governo Federal n\u00e3o divulga em detalhes essas informa\u00e7\u00f5es. N\u00e3o h\u00e1, por exemplo, a informa\u00e7\u00e3o de quantos casos foram confirmados por ra\u00e7a\/cor ou o n\u00famero de testes em negros, brancos e outros grupos.<\/p>\n<p>Como explica Rita Borret, da Sociedade Brasileira de Medicina da Fam\u00edlia e Comunidade, n\u00e3o divulgar esses dados impede que profissionais de sa\u00fade, a imprensa, pesquisadores e mesmo a popula\u00e7\u00e3o acompanhem se a subnotifica\u00e7\u00e3o em negros \u00e9 maior que em brancos. A m\u00e9dica explica que negros dependem mais do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) \u2014 uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea) indicava que, em<br \/>\n2008, a popula\u00e7\u00e3o negra representava 67% dos usu\u00e1rios do SUS.<\/p>\n<p>\u201cSe o acesso ao exame est\u00e1 dif\u00edcil no sistema p\u00fablico, como voc\u00ea consegue saber se um paciente negro confirmou ou n\u00e3o a doen\u00e7a? E se h\u00e1 pessoas que sequer est\u00e3o tendo a chance de serem atendidas, inclusive para interna\u00e7\u00e3o, sabemos que a Covid-19 est\u00e1 subnotificada na popula\u00e7\u00e3o negra, mas n\u00e3o sabemos quanto\u201d, analisa.<\/p>\n<p>Foi o grupo de trabalho de sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o negra, da qual Borret faz parte, que pediu ao Minist\u00e9rio da Sa\u00fade que publicasse dados de ra\u00e7a\/cor de mortos por coronav\u00edrus. O governo s\u00f3 passou a divulgar os dados no boletim referente a 11 de abril, sem detalhar dados de casos confirmados ou de testes. Questionado sobre a falta de dados mais completos, o minist\u00e9rio, j\u00e1 sob a gest\u00e3o de Nelson Teich, chegou a afirmar que n\u00e3o h\u00e1 \u201cestudos t\u00e9cnicos ou cient\u00edficos que apontem cor ou ra\u00e7a como fator de risco da doen\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s sabemos disso, o problema n\u00e3o \u00e9 ra\u00e7a, mas o racismo, que dificulta o acesso de negros \u00e0 sa\u00fade. O acesso \u00e0 sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 muito pior que da popula\u00e7\u00e3o branca no pa\u00eds. E a gente n\u00e3o tem tempo, o coronav\u00edrus n\u00e3o d\u00e1 tempo para fazermos um trabalho pedag\u00f3gico sobre a Pol\u00edtica Nacional de Sa\u00fade Integral da Popula\u00e7\u00e3o Negra. Precisamos que o Minist\u00e9rio esteja atento a essas quest\u00f5es o tempo todo, como est\u00e1 escrito na Lei.\u201d, critica Borret.<\/p>\n<p>Para Fernanda Campagnucci, diretora-executiva da Open Knowledge Brasil (OKBR), a aus\u00eancia de dados sobre ra\u00e7a e cor \u00e9 um problema para a an\u00e1lise do impacto que a Covid-19 tem em diferentes grupos. \u201cEm alguns lugares come\u00e7aram a fazer an\u00e1lises sobre como a popula\u00e7\u00e3o negra tem sido afetada de forma desproporcional, como nos Estados Unidos, por exemplo. Isso pode estar relacionado a diversos outros fatores, mas \u00e9 importante ter o dado para come\u00e7ar a fazer esse tipo de an\u00e1lise aqui no Brasil\u201d.<\/p>\n<p>O \u00faltimo boletim Transpar\u00eancia Covid-19, publica\u00e7\u00e3o semanal organizada pela OKBR que avalia a transpar\u00eancia dos estados e Governo Federal na divulga\u00e7\u00e3o dos dados da pandemia, apontou que 32% dos estados divulgam seus microdados. Dos estados que disponibilizam seus microdados, apenas o Esp\u00edrito Santo disponibiliza a base incluindo dados sobre ra\u00e7a\/cor; no entanto, essa informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 preenchida em todos os casos registrados (dos 3208 registros coletados at\u00e9 o dia 3 de maio, 1094 tinham o campo ra\u00e7a\/cor ignorado).<\/p>\n<p>No \u00faltimo dia 5, a Justi\u00e7a Federal do Rio de Janeiro determinou que registro e divulga\u00e7\u00e3o de casos de coronav\u00edrus no pa\u00eds tenham obrigatoriamente informa\u00e7\u00f5es sobre a ra\u00e7a\/cor dos infectados. 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