{"id":37780,"date":"2019-05-13T10:05:09","date_gmt":"2019-05-13T13:05:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sinergiacut.org.br\/?p=37780"},"modified":"2019-07-26T11:28:13","modified_gmt":"2019-07-26T14:28:13","slug":"13-de-maio-a-liberdade-nao-veio-das-maos-de-isabel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/?p=37780","title":{"rendered":"13 de maio: A liberdade n\u00e3o veio das m\u00e3os de Isabel"},"content":{"rendered":"<p class=\"caps\">Quem atribui a liberta\u00e7\u00e3o \u00e0 princesa nega toda a hist\u00f3ria de luta anterior \u00e0 assinatura<\/p>\n<p>\u201cA liberdade n\u00e3o veio das m\u00e3os de Isabel\u2026 \u00c9 um drag\u00e3o no mar de Aracati\u201d. Dois versos do samba-enredo campe\u00e3o do carnaval do Rio de Janeiro em 2019 colocaram por terra 131 anos de historiografia oficial. Diz o prov\u00e9rbio africano que, \u201cat\u00e9 que os le\u00f5es tenham seus pr\u00f3prios historiadores, as hist\u00f3rias de ca\u00e7adas continuar\u00e3o glorificando o ca\u00e7ador\u201d. A letra do samba, que tem por base a pesquisa hist\u00f3rica, revela que mais pessoas est\u00e3o se dispondo a contar o ponto de vista dos felinos.<\/p>\n<p>Desde cedo se aprende nos bancos escolares que a \u201cgenerosidade\u201d da princesa permitiu ao povo negro livrar-se dos grilh\u00f5es e ganhar a liberdade com que sonhavam desde que foram aprisionados nas savanas africanas. Mas, como no prov\u00e9rbio africano, este \u00e9 o ponto de vista dos ca\u00e7adores. A \u201chist\u00f3ria\u201d ensinada aos descendentes dos escravizados esconde o papel ativo que seus antepassados tiverem na luta pela sua pr\u00f3pria liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em seu livro, Escritos da Liberdade: Literatos negros, racismo e cidadania no Brasil oitocentista, a historiadora Ana Fl\u00e1via Magalh\u00e3es Pinto informa que o primeiro censo demogr\u00e1fico realizado no Brasil do s\u00e9culo 19 apontou um dado importante: seis em cada dez pessoas pretas e pardas j\u00e1 viviam nas condi\u00e7\u00f5es de livres e libertas, 16 anos antes do fim da escravid\u00e3o. Homens e mulheres negros constitu\u00edram experi\u00eancias de liberdade na sociedade escravocrata, com a forma\u00e7\u00e3o de redes at\u00e9 mesmo transnacionais de escritores, jornalistas e artistas que lutavam pelo abolicionismo e projetos de cidadania.<\/p>\n<p>\u201cNossa tend\u00eancia \u00e9 a de n\u00e3o reconhecer estes sujeitos no ch\u00e3o da hist\u00f3ria onde se assenta a dicotomia senhores brancos e escravizados negros. Mas, na liberdade, o exerc\u00edcio da cidadania era interditado cotidianamente a pessoas negras por conta do racismo\u201d, afirma a historiadora. O racismo sequestrou outra hist\u00f3ria sobre o abolicionismo E ainda, impediu que chegasse at\u00e9 os dias de hoje relatos sobre projetos de liberdade e de fim da escravid\u00e3o protagonizados por sujeitos negros, e tamb\u00e9m express\u00f5es mais radicais e populares que articulavam organiza\u00e7\u00f5es de trabalhadores de \u201cbaixo prest\u00edgio\u201d.<\/p>\n<p>Estes projetos lidavam com expectativas n\u00e3o s\u00f3 de liberta\u00e7\u00e3o dos escravizados, mas com o consequente desmonte dos entraves colocados ao exerc\u00edcio pleno da cidadania daquelas pessoas que j\u00e1 viviam em liberdade.<\/p>\n<p>Arranjo das elites<\/p>\n<p>No dia 13 de maio de 1888, h\u00e1 131 anos, o Senado Imperial do Brasil aprovou uma das leis mais importantes da hist\u00f3ria do pa\u00eds, a Lei \u00c1urea, que extinguiu a escravid\u00e3o. Mas, n\u00e3o era apenas a liberdade de seres humanos escravizados que estava em jogo naquele momento. Outra quest\u00e3o estava posta na mesa: a reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>De acordo com o historiador Luiz Felipe de Alencastro, o debate sobre a reparti\u00e7\u00e3o das terras nacionais havia sido proposto pelo abolicionista Andr\u00e9 Rebou\u00e7as, engenheiro negro de grande prest\u00edgio. Sua ideia era criar um imposto sobre fazendas improdutivas e distribuir as terras para ex-escravos.<\/p>\n<p>Joaquim Nabuco, tamb\u00e9m abolicionista, apoiou a ideia. Mas, fazendeiros, republicanos e mesmo abolicionistas moderados ficaram em polvorosa.<\/p>\n<p>\u201cA maior parte do movimento abolicionista republicano fechou com os latifundi\u00e1rios para n\u00e3o mexer na propriedade rural\u201d, diz Alencastro. A aprova\u00e7\u00e3o da Lei \u00c1urea \u00e9 fruto deste arranjo. Os escravizados foram libertos, por\u00e9m, sem nenhuma compensa\u00e7\u00e3o ou alternativa para se inserirem no Brasil livre. \u201cLivres do a\u00e7oite da senzala, por\u00e9m, presos na mis\u00e9ria da favela\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o ao redentorismo<\/p>\n<p>Um debate que come\u00e7ou antes mesmo da promulga\u00e7\u00e3o da Lei \u00c1urea, e permanece ainda hoje, gira em torno do tratamento que se deve dar \u00e0 princesa Isabel. Mesmo entre os negros e negras, muitos a consideram como a \u201credentora, por ter lhes dado a liberdade\u201d. Mas, ser\u00e1 que foi isso mesmo?<\/p>\n<p>Os historiadores dos le\u00f5es h\u00e1 anos v\u00eam mostrando outros pontos de vista para as hist\u00f3rias de ca\u00e7adas. E a verdade em torno da assinatura da Lei \u00c1urea mostra o que ela \u00e9 de fato: produto de um arranjo entre as elites e n\u00e3o uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para colocar fim ao flagelo da escraviza\u00e7\u00e3o de seres humanos negros e negras.<\/p>\n<p>Para o Coletivo de Combate ao Racismo da subsede Campinas da CUT Estadual S\u00e3o Paulo, o 13 de maio n\u00e3o \u00e9 um dia para comemora\u00e7\u00f5es. \u00c9 muito mais uma data que convida \u00e0 reflex\u00e3o e ao debate sobre o estado atual de desigualdades social e racial no Brasil. A hist\u00f3ria n\u00e3o pode ser contada somente do ponto de vista dos vencedores. Era assim at\u00e9 h\u00e1 alguns anos atr\u00e1s. A mudan\u00e7a de paradigmas e refer\u00eancias revelou outras hist\u00f3rias capazes de mudar vis\u00f5es e mentalidades.<\/p>\n<p>A partir do momento em que se reconhecem protagonistas de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, negros e negros ampliam a consci\u00eancia de que sua realidade atual pode, e deve, ser diferente. Que \u00e9 necess\u00e1rio lutar de forma permanente contra o racismo e toda e qualquer forma de discrimina\u00e7\u00e3o; e contra o desmonte das pol\u00edticas p\u00fablicas destinadas a reparar o flagelo da escravid\u00e3o e resgatar a d\u00edvida hist\u00f3rica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem atribui a liberta\u00e7\u00e3o \u00e0 princesa nega toda a hist\u00f3ria de luta anterior \u00e0 assinatura \u201cA liberdade n\u00e3o veio das m\u00e3os de Isabel\u2026 \u00c9 um drag\u00e3o no mar de Aracati\u201d.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":37781,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"categories":[40],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/37780"}],"collection":[{"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=37780"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/37780\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/37781"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=37780"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=37780"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=37780"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}