{"id":11390,"date":"2011-10-20T10:35:43","date_gmt":"2011-10-20T10:35:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sinergiacut.org.br\/?p=11390"},"modified":"2011-10-20T10:35:43","modified_gmt":"2011-10-20T10:35:43","slug":"artigo-de-artur-henrique-greve-instrumento-de-transformacao-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sistema.sinergiacut.org.br\/?p=11390","title":{"rendered":"Artigo de Artur Henrique: Greve, instrumento de transforma\u00e7\u00e3o social"},"content":{"rendered":"<p class=\"caps\"><strong>Em artigo, presidente da CUT critica autoridades p\u00fablicas que esqueceram seu passado grevista. Confira:<\/strong><\/p>\n<p>A greve \u00e9 mais que um direito constitucional e um instrumento leg\u00edtimo para os trabalhadores cobrarem aumentos salariais, prote\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o de direitos e melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida em geral.<\/p>\n<p>Um movimento grevista tamb\u00e9m \u00e9 um dos principais momentos para elevar a consci\u00eancia cr\u00edtica da popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma oportunidade de as pessoas se enxergarem como conjunto transformador, e por isso guarda em si potencial de catarse pol\u00edtica, de passagem para uma experi\u00eancia ativa de mudan\u00e7a do mundo social.<\/p>\n<p>Compreendido esse potencial, entende-se porque as greves s\u00e3o t\u00e3o hostilizadas &#8211; embora, e propositalmente, jamais de modo a apontar o verdadeiro temor \u2013 pelos patr\u00f5es em geral e todo o sistema hegem\u00f4nico de que disp\u00f5em.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o se pode entender ou mesmo aceitar \u00e9 que administradores p\u00fablicos das tr\u00eas esferas de governo, especialmente aqueles que t\u00eam origem no movimento sindical e nas lutas sociais, tentem desqualificar a greve ou coloquem-se contra o movimento como se defendessem um princ\u00edpio.<\/p>\n<p>Acompanhamos em greves recentes e bastante disputadas \u2013 como a dos professores em 17 estados brasileiros e a dos Correios \u2013 manifesta\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias e reacion\u00e1rias que se prestaram \u00e0 deseduca\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e \u00e0 desmobiliza\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Nem vamos nos deter mais longamente em rea\u00e7\u00f5es truculentas como a de alguns governadores e prefeitos que permitiram ou talvez at\u00e9 tenham ordenado a repress\u00e3o policial sobre os trabalhadores, tamanho o absurdo da conduta.\u00a0 Dino Santos\u00a0 <br \/>\nArtur, durante a 13a Plen\u00e1ria Nacional da CUT<br \/>\nPor\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 preciso chegar a tal manifesta\u00e7\u00e3o antidemocr\u00e1tica para ser igualmente nocivo \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. A amea\u00e7a de n\u00e3o negociar com grevistas ou a inten\u00e7\u00e3o de negociar separadamente com aqueles que n\u00e3o aderiram \u00e0 greve \u00e9 uma tentativa de premiar o medo, a timidez e, principalmente, o individualismo. Ainda que a escolha de participar ou n\u00e3o de uma greve seja um direito leg\u00edtimo de cada trabalhador e trabalhadora, quando uma autoridade p\u00fablica acena positivamente para aqueles que optaram pela via solit\u00e1ria, presta desservi\u00e7o igual \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia pol\u00edtica coletiva e ao sonho de mudar a sociedade.<\/p>\n<p>Quando atitudes como essa partem de companheiros que j\u00e1 foram sindicalistas e que j\u00e1 fizeram greve, deparamo-nos com uma amea\u00e7a s\u00e9ria. Claro que n\u00e3o podemos nos deixar levar pela sensa\u00e7\u00e3o de desalento que tal situa\u00e7\u00e3o poderia produzir, mas \u00e9 inevit\u00e1vel um travo de decep\u00e7\u00e3o na garganta \u2013 sem falar que a conduta desses companheiros serve como justificativa para pol\u00edticos tradicionalmente avessos \u00e0s lutas populares.<\/p>\n<p>Devemos lembrar que no Brasil de hoje h\u00e1 ministros e presidentes de estatais que s\u00f3 chegaram l\u00e1 porque fizeram greves ao longo de suas trajet\u00f3rias. Esquecer-se disso \u00e9 jogar contra a proposta de transforma\u00e7\u00e3o social que tem nos guiado nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Se queremos construir um novo modelo de desenvolvimento, com \u00eanfase na distribui\u00e7\u00e3o de renda, na supera\u00e7\u00e3o das desigualdades e na afirma\u00e7\u00e3o da liberdade, devemos repudiar tal comportamento demonstrado por algumas autoridades p\u00fablicas nos \u00faltimos dias.<\/p>\n<p>Se nosso desejo \u00e9 que as pessoas que hoje saem da pobreza e come\u00e7am a ascender socialmente n\u00e3o reproduzam amanh\u00e3 o mesmo esp\u00edrito de competi\u00e7\u00e3o entre iguais do qual j\u00e1 foram e ainda s\u00e3o v\u00edtimas, se queremos a solidariedade como princ\u00edpio e o coletivo como estrat\u00e9gia, nosso caminho \u00e9 totalmente outro.<\/p>\n<p>Greve n\u00e3o \u00e9 um objetivo em si<\/p>\n<p>Nada disso quer dizer que a greve seja algo que busquemos como recurso primeiro. Ao contr\u00e1rio. Quando acontece, a greve \u00e9 resultado de um processo de negocia\u00e7\u00e3o que fracassou. Em circunst\u00e2ncias assim, \u00e9 o \u00faltimo e \u00fanico recurso de press\u00e3o dos trabalhadores, diante da multiplicidade de mecanismos de que disp\u00f5em os empregadores \u2013 for\u00e7a econ\u00f4mica, dom\u00ednio dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e at\u00e9 controle das for\u00e7as de repress\u00e3o.<\/p>\n<p>Os mais bem sucedidos processos de negocia\u00e7\u00e3o, por sua vez, derivam da realiza\u00e7\u00e3o de greves em per\u00edodos anteriores que elevaram o grau de consci\u00eancia pol\u00edtica e organizativa de determinados grupos.<\/p>\n<p>J\u00e1 o fracasso de um processo de negocia\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser atribu\u00eddo a um \u00fanico ator do processo. Tanto no setor privado quanto no p\u00fablico, os administradores t\u00eam entre suas fun\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas a intermedia\u00e7\u00e3o de conflitos trabalhistas.\u00a0 Fentect-CUT\u00a0 <br \/>\nAssembleia dos trabalhadores dos Correios em greve<br \/>\nJusti\u00e7a do trabalho<\/p>\n<p>Por isso consideramos inadmiss\u00edvel que a Justi\u00e7a do Trabalho, como alguns de seus mais destacados representantes fizeram por ocasi\u00e3o da greve nos Correios, atribua aos trabalhadores e seus sindicatos a responsabilidade total pelas paralisa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, a chegada de um conflito entre capital e trabalho at\u00e9 a Justi\u00e7a \u00e9 o pior cen\u00e1rio de um movimento grevista, pois sinaliza o fracasso completo do processo de di\u00e1logo.<\/p>\n<p>Ainda sobre a Justi\u00e7a do Trabalho, \u00e9 importante destacar \u2013 registre-se que isso n\u00e3o ocorreu no caso dos Correios \u2013 a pr\u00e1tica cada vez mais recorrente de julgar a conveni\u00eancia ou o car\u00e1ter abusivo da greve antes mesmo de considerar a justeza das reivindica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>J\u00e1 na Justi\u00e7a comum, desse modo de avaliar os movimentos grevistas derivam-se os interditos proibit\u00f3rios, que impedem os trabalhadores de se reunir nas proximidades da empresa em momentos de mobiliza\u00e7\u00e3o. Outro absurdo.<\/p>\n<p>Vivemos no Brasil um momento complicado em rela\u00e7\u00e3o aos processos de negocia\u00e7\u00e3o coletiva. H\u00e1 um v\u00e1cuo legal para o qual j\u00e1 propusemos, para o setor p\u00fablico, a regulamenta\u00e7\u00e3o da Conven\u00e7\u00e3o 151 do OIT \u2013 j\u00e1 ratificada pelo Congresso \u2013 e a organiza\u00e7\u00e3o por local de trabalho tanto para o setor privado quanto para o p\u00fablico.<\/p>\n<p>Um dos legados dos anos Lula e Dilma deve ser a amplia\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia e participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do povo, jamais o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>No mundo inteiro<\/p>\n<p>Enquanto isso, os indignados de todo o mundo v\u00e3o \u00e0s ruas protestar contra o capitalismo, ainda que de forma fragmentada, com bandeiras m\u00faltiplas, reivindicando uma nova forma de gerir o planeta. Todos que acampam, levantam bandeiras e batem bumbo querem dizer, se me permitem o uso de uma frase que os estadunidenses criaram, com sua capacidade toda pr\u00f3pria adquirida gra\u00e7as ao cinema e \u00e0 publicidade: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o me deixa sonhar, ent\u00e3o eu n\u00e3o deixo voc\u00ea dormir\u201d.<\/p>\n<p>O Brasil, que pleiteia, com justi\u00e7a, uma posi\u00e7\u00e3o de comando na diplomacia internacional, bem que poderia dizer ao mundo, durante as cerim\u00f4nias p\u00fablicas e nas coletivas de imprensa de f\u00f3runs mundiais como o pr\u00f3ximo G-20, que n\u00e3o h\u00e1 nada comprovadamente mais eficaz contra a crise do que a organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, ao mesmo tempo respons\u00e1vel pela produ\u00e7\u00e3o e pelo consumo.<\/p>\n<p>Arrisco-me a dizer ainda que a Am\u00e9rica Latina, a partir de suas experi\u00eancias contra-hegem\u00f4nicas, tem todo o direito de propor aos povos do Hemisf\u00e9rio Norte a desobedi\u00eancia ao sistema financeiro, esse que rouba nossos sonhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Artur Henrique &#8211; Presidente da CUT Nacional<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em artigo, presidente da CUT critica autoridades p\u00fablicas que esqueceram seu passado grevista. 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