Votação marcada
Previsto para ser votado hoje no Senado – mas adiado para a próxima semana –, PL das Fake News não foi debatido com a sociedade, não ataca indústria de mentiras e ameaça liberdade e privacidade
Série "Black Mirror" traz episódios com suspense e sátiras à forma como a sociedade torna-se mais refém do que beneficiária das tecnologias
São Paulo – O relatório apresentado pelo senador Ângelo Coronel (PSD-BA) relativo ao Projeto de Lei 2.630 – o PL das Fake News – é inadmissível e vai acabar com a liberdade de expressão na rede. O alerta é da Coalizão Direitos na Rede, que elaborou documento com críticas e alternativas ao à proposta. A previsão era que o PL fosse votado pelo Senado nesta terça-feira (2), mas o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (DEM), comunicou, à tarde, o adiamento da análise para a semana que vem, sem definir data.
A jornalista Bia Barbosa, integrante do coletivo, afirma que a polarização política prejudicou o debate necessário em torno do PL. E que pelo fato de o projeto ser criticado por bolsonaristas muita gente do campo democrático passou a apoiar automaticamente, sem entender de seu conteúdo. Segundo a coalizão, o projeto do senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) surgiu com diversos problemas e ficou ainda pior no relatório de Ângelo Coronel.
“É muito ruim que essa polarização tenha acontecido, porque a gente precisa sim de medidas eficazes para combater as fake news, mas esse PL ainda tem muitos problemas e precisa ser modificado”, afirma Bia. “Por exemplo, o PL não proíbe esses disparadores em massa de mensagens externas ao WhatsApp, que a gente viu funcionando muito nas eleições 2018 e que continuam funcionando. O texto não traz nada sobre isso.”
View this post on Instagram A gente precisa sim combater a desinformação, mas o #PLFakeNews ainda tem muitos problemas. Se for aprovado como está, pode resultar, entre outras coisas, em censura privada por parte das grandes plataformas digitais. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ Bia Barbosa, do Intervozes e da Coalizão @direitosnarede, explica melhor nesse vídeo! ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ Simbora entender melhor o que está em jogo? Entra lá na nossa live e mande suas dúvidas! A post shared by Intervozes (@intervozes) on May 30, 2020 at 1:39pm PDT
A gente precisa sim combater a desinformação, mas o #PLFakeNews ainda tem muitos problemas. Se for aprovado como está, pode resultar, entre outras coisas, em censura privada por parte das grandes plataformas digitais. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ Bia Barbosa, do Intervozes e da Coalizão @direitosnarede, explica melhor nesse vídeo! ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ Simbora entender melhor o que está em jogo? Entra lá na nossa live e mande suas dúvidas!
A post shared by Intervozes (@intervozes) on May 30, 2020 at 1:39pm PDT
Por volta das 15h de hoje, Alcolumbre comunicou em seu Twitter que a votação do PL seria adiada. “Em acordo com o autor Alessandro Vieira, o relator Angelo Coronel e os líderes partidários, determinei o adiamento para a próxima semana da análise do PL 2630/2020, que trata sobre fake news. A matéria estava prevista para a sessão desta terça-feira (2).
Em acordo com o autor @Sen_Alessandro, o relator @angelocoronel_ , e os líderes partidários do @SenadoFederal , determinei o adiamento para a próxima semana da análise do PL 2630/2020, que trata sobre fake news. A matéria estava prevista para a sessão desta terça-feira (2). — Davi Alcolumbre (@davialcolumbre) June 2, 2020
Em acordo com o autor @Sen_Alessandro, o relator @angelocoronel_ , e os líderes partidários do @SenadoFederal , determinei o adiamento para a próxima semana da análise do PL 2630/2020, que trata sobre fake news. A matéria estava prevista para a sessão desta terça-feira (2).
— Davi Alcolumbre (@davialcolumbre) June 2, 2020
A Coalizão Direitos na Rede – que reúne 38 organizações de pesquisa e defesa de direitos digitais, da liberdade de expressão e direitos do consumidor – divulgou nota em que chama o PL das Fake News de “PL Black Mirror“. O apelido é alusão à série britânica exibida pela Netflix que traz episódios autônomos com histórias críticas e satíricas sobre a forma como a sociedade moderna se torna mais refém do que beneficiária das novas tecnologias.
A nota lista 10 pontos em que explica os problemas do PL das Fake News e por que pede o adiamento da votação. O coletivo defende um debate mais amplo, descontaminado da crise política, para que o combate às fake news não se transforme em ataque à liberdade e à privacidade a rede.
O projeto tem efeito bombástico na liberdade de expressão da internet no Brasil, estabelecendo que com a mera entrada com processo judicial a rede social tenha que remover o conteúdo questionado na Justiça para que não seja responsabilizada caso ele seja julgado ilegal (art. 53).
O texto burocratiza ao máximo o acesso às redes sociais, tratando todos os usuários como potenciais criminosos. Para controlar o acesso, todos os usuários deverão enviar todos os seus documentos para ter uma conta em rede social (art. 7).
Senadores votarão um projeto cujo conteúdo (dado pelo relatório do senador Ângelo Coronel) foi divulgado há poucas horas, sem que os parlamentares e a sociedade possam avaliar e discutir suas propostas. Em um processo totalmente antidemocrático, além de violar vários direitos o texto possui inúmeras problemas técnicos. É necessário tempo para garantir um mínimo debate com a sociedade.
Na linha de tratar todos os usuários de internet como potenciais criminosos, delegados e promotores terão acesso livre aos cadastros (agora documentados) de usuários de internet sem qualquer crivo judicial (art. 12).
Com mais de 50 artigos, o projeto cria inúmeras hipóteses que podem ensejar bloqueio dos provedores redes sociais, abrindo espaço para enorme insegurança e incerteza para quem trabalha dependendo da internet. Bloqueios como os que vimos, do Whatsapp, vão se multiplicar em todas as redes (art. 40 e restantes).
O texto legitima as redes sociais como ministério da verdade, legalizando seus termos de uso para derrubar qualquer tipo de postagem que desejarem (Art. 9). O relatório ainda dá o poder para as plataformas de definir quais são os casos excepcionais e quais outros vão exigir uma defesa prévia para remoção de conteúdo (art. 10, caput e § 5º).
O texto cria um sistema em que pessoas darão notas às outras e isso gerará prejuízos a quem for “mal classificado” (art. 14 e 15). Os critérios de classificação serão definidos pelas plataformas, abrindo espaço para todo tipo de abusos.
O PL legaliza as práticas de assédio e ataques na Internet pelo sistema de notas e ao prever que a pessoa será rotulada por qualquer denúncia que receber, mesmo as infundadas e antes da análise do mérito (art. 11). Quem tiver pontuação baixa não conseguirá ter seu conteúdo acessado e poderá inclusive perder a conta.
O relatório pode jogar na cadeia por três a seis anos pessoas que repassaram conteúdos sem saber se são falsos (art. 47). Uma medida desproporcional e condenada por todas as relatorias internacionais de Direitos Humanos. Hoje, 59% das pessoas têm acesso à internet só pelo celular e muitas vezes não podem sequer checar conteúdos por não terem acesso a outros sites além do WhatsApp para checar as informações que recebem.
Sem delimitar o que é “desinformação” ou “conteúdo manipulado”, a lei usa esses termos no novo enquadramento de organização criminosa e lavagem de dinheiro, abrindo enorme espaço de criminalização de qualquer ativismo, movimento social e jornalismo (art. 49 e 50).
Mestre e doutoranda em Ciências Sociais na Universidade Federal do ABC, Joyce Souza, pesquisadora do Laboratório Especial de Tecnologias Livres, fala das semelhanças entre Jair Bolsonaro e Donald Trump no que diz respeito ao controle nas redes.
Por Redação RBA