Valor Econômico: “AES define Tietê como seu braço de expansão”

09 junho 10:10 2015 Valor Econômico, 05/06/2015

Abaixo, notícia produzida e divulgada pelo Valor Econômico no dia 05/06/2015

Após pelo menos três meses de negociações, o grupo americano AES e a BNDESPar concluíram uma mudança importante na composição societária da Companhia Brasiliana, holding na qual são sócios e que controla gigantes como a geradora de energia AES Tietê e a distribuidora AES Eletropaulo.

A nova estrutura, divulgada na noite de quarta-feira, “desamarra” os dois sócios no negócio de geração e dá espaço para que a a AES Tietê atue como ma empresa consolidadora de ativos, além de abrir uma porta de liquidez para que o banco de fomento possa eventualmente vender sua fatia no negócio.

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A transação resultará na diminuição do poder de voto da BNDESPar na Tietê, num acordo de acionistas com mais liberdade entre os sócios e na migração da geradora para o nível 2 de governança corporativa. O objetivo é dar mais agilidade aos processos de decisão e permitir possíveis capitalizações via mercado de ações, caso a empresa decida embarcar em aquisições de maior porte, disse o presidente do grupo AES, Brasil, Britaldo Soares, em entrevista exclusiva ao *Valor*.

“Há o anúncio de venda de ativos relevantes no mercado de energia térmica e, com a nova estrutura, podemos focar nisso de forma mais ágil e incisiva”, ressaltou Soares. Questionado se a Tietê tem interesse nas térmicas da Petrobras que foram colocadas à venda, ele não titubeou: “Sem dúvidas, o portfólio da Petrobras é um portfólio de grande interesse”, disse.

Hoje, a AES Tietê atua apenas no segmento de energia hídrica, por meio de doze usinas, e há anos não tem sucesso em colocar novos projetos em leilão. Os últimos projetos a entrar em operação foram duas pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) em São Paulo, em 2011 e 2012.

A intenção agora é voltar a crescer, com aposta no segmento de termelétricas, além de eólicas e projetos solares, explica Soares. A companhia possui dois projetos movidos a gás prontos em São Paulo para serem vendidos em leilões, mas tem dificuldade para conseguir o fornecimento do insumo – a Petrobras não tem disponibilizado gás para novas térmicas – e nesse sentido as aquisições aparecem como boas oportunidades. “A AES Tietê vai ser o único veículo de geração do grupo e será uma empresa consolidadora”, afirmou.

O casamento entre a AES Brasil e a BNDESPar na Brasiliana é antigo – e arranjado. Começou em 2003, um pouco após a crise trazida pelo acionamento, quando o braço de participações do banco de fomento converteu US$ 1,2 bilhão em dívidas do grupo em participação acionária, perfazendo 53,8% do capital total. A AES tinha 50% mais uma ação ordinária, enquanto a BNDESPar tinha a fatia restante.

Pela reestruturação anunciada nesta semana, houve uma cisão da holding: os ativos da Tietê ficaram separados em uma nova empresa, enquanto, para os demais ativos – incluindo a Eletropaulo – continuam reunidos na Brasiliana Participações, que manterá a mesma estrutura acionária e acordo de acionistas do veículo de controle anterior.

O processo terá início com a venda de 8% do capital votante em ações ordinárias da Brasiliana pela BNDESPar à AES, pelo seu valor patrimonial. Soares evitou comentar valores, mas pelos números do balanço da holding no primeiro trimestre, o *Valor* estima que o negócio pode custar à empresa americana cerca de R$ 400 milhões.

Em seguida, ações ordinárias da BNDESPar serão convertidas em preferenciais e papéis sem direito a voto da AES virarão papéis votantes. Ao fim do processo, a AES terá apenas capital votante, equivalentes a 61,5% das ações ordinárias, enquanto o BNDESPar ficará com 14,36% /(ver quadro acima). / A participação no capital total de cada um dos sócios na Tietê, de 24,25% e 28,29%, respectivamente, será mantida.

Na prática, é uma mudança entre poder político (de voto) por poder econômico, resume Soares. “A BNDESPar buscava uma posição mais líquida e é o que estamos proporcionando. Para a AES, o movimento é de compromisso com nossa estratégia de ser uma empresa consolidadora no setor de energia”, afirmou o executivo.

Outra mudança importante será a migração da companhia para o Nível 2 de governança corporativa na forma de units, “pacotes” formados por uma ação ordinária e quatro ações preferenciais, o que aumenta sua liquidez em bolsa. A previsão é que o processo todo seja concluído entre o fim de 2015 e o início de 2016.

O novo acordo de acionistas que vai vigorar na Tietê dá espaço ainda para que os sócios vendam suas participações de forma separada na companhia. O documento anterior praticamente amarrava os acionistas, por conta de uma cláusula de “drag along”, que prevê a obrigação de venda de todas as ações da companhia a um único comprador.

Agora, tanto AES quanto BNDESPar estão livres para vender seus papéis. E numa empresa com maior liquidez e padrões mais rígidos de governança, o ativo tende a se valorizar.

Para o banco de fomento, não seria a primeira tentativa de sair do negócio. A primeira ofensiva ocorreu em 2007, quando foram contratados bancos de investimento para levar à frente a operação, que foi barrada diante do interesse da AES de exercer seu direito de preferência na compra da fatia do sócio. Na época, o grupo americano tinha uma dívida bilionária com o banco de fomento e a transação foi suspensa a pedido de Dilma Rousseff, que ocupava o cargo de ministra de Minas e Energia.

Para a Eletropaulo, outra gigante da AES, a estratégia permanece a mesma, diz Soares: “Na distribuição, nada muda. O acordo de acionistas é similar ao que existe hoje, o foco é a eficiência e a qualidade da operação da distribuidora”, destaca o executivo. (Por Natalia Viri | De São Paulo)

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