Falta de água: a história de uma crise anunciada

Falta de água: a história de uma crise anunciada
17 outubro 11:30 2014 Lílian Parise

Governo tucano quer que população economize água, mas não evita desperdício de 30% com vazamentos. Política de desmonte do projeto neoliberal que não investe para garantir a qualidade dos serviços públicos. Esse filme nós já vimos

Não é de hoje que o Sinergia CUT denuncia a irresponsabilidade do governo tucano de Geraldo Alckmin na maior crise de abastecimento de água já vivida pelos paulistas. Candidato à reeleição para o governo de SP, Alckmin e aliados negavam a crise hídrica, adiavam o racionamento e jogavam a culpa da diminuição dos níveis do Cantareira na conta de São Pedro.

Um vale tudo para adiar medidas consideradas impopulares em período eleitoral, mas que deveriam ter sido encaradas com urgência para evitar o que certamente pode vir a ser uma calamidade pública, principalmente nas regiões de São Paulo e Campinas, com uma população estimada em 25 milhões e responsável pela geração de 23% do PIB nacional.

“Estelionato eleitoral”
Fechadas as urnas, contados os votos e garantida a reeleição, a verdade veio à tona, inclusive nas manchetes dos grandes jornais. Na ressaca da eleição, o grave risco de desabastecimento rompe o silêncio e escancara a realidade cruel que vai muito além da estiagem e do calor atípico. “Verdadeiro estelionato eleitoral”, define o Sinergia CUT.

Em várias cidades do interior, a população já sofre com o racionamento e a falta de água atinge todas as regiões da capital dia sim, outro também. A primeira cota do volume morto – água situada abaixo da faixa de captação – que começou a ser usada em maio caiu para 4,5% e deve acabar em um mês.

Inércia tucana
Uma grave realidade que não passa de uma crise anunciada há tempos. Nesses mais de vinte anos de governo tucano em SP, a incompetência neoliberal ignorou os investimentos necessários para proteger os mananciais, garantir o tratamento de esgoto e dejetos industriais, reduzir o desperdício na produção e no consumo e aumentar a capacidade de reserva para reforçar o abastecimento da população.

Só para ter uma ideia, em depoimento à CPI instalada na Câmara de São Paulo, a presidenta da Sabesp admitiu que as perdas totais em vazamentos de canos e tubulações continuam em torno de 30%, mesmo índice dos últimos seis anos. Resumo da ópera: a Sabesp pede para os paulistas economizarem água, mas não investe nada para evitar o desperdício.

Política de desmonte
Aliás, o demonte de empresas prestadoras de serviços públicos é marca registrada do jeito tucano de governar. Uma história que já é velha conhecida do Sindicato e dos trabalhadores do setor energético desde o governo FHC.

Levantamento de especialistas comprovam que, em 1992, a relação entre a expansão da capacidade instalada atendia plenamente à demanda do consumo de energia. Na presidência, entre os anos 1995 e 2002, além de viabilizar a privataria tucana em SP, FHC não investiu um centavo na expansão da geração e da rede de transmissão para atender o crescimento da demanda.

Apagão de investimentos
À época, os reservatórios da região sudeste eram responsáveis por 68% do armazenamento hídrico do Brasil. Sem investimentos, a irresponsabilidade do governo tucano usou a “poupança” dos reservatórios para suprir a diferença entre a oferta e a demanda. Em pouco tempo, o esvaziamento dos rios foi tão grande que jogou o Brasil no escuro, impondo o maior racionamento de energia elétrica da história entre o final de 2001 e fevereiro de 2002 (leia gráfico).

Vale lembrar que a população das regiões nordeste, sudeste e centro oeste foram obrigadas a reduzir o consumo de energia em 25%, resultado da falta de investimentos também em redes de transmissão para transportar a energia disponível nas regiões norte e sul.

“O mais grave é que essa política tucana de esvaziamento provocou uma mudança estrutural nos nossos rios. Isso significa que nunca mais os reservatórios vão retornar aos níveis de 1991, quando estavam com 100% de capacidade”, alerta o Sinergia CUT.

PT garante energia
Como agora, às vésperas das eleições gerais de 2002, FHC suspendeu o racionamento na tentativa de eleger o sucessor tucano. Na época, o estelionato eleitoral fracassou e o povo brasileiro elegeu o petista Luiz Inácio Lula da Silva, o primeiro operário presidente do Brasil.

De lá para cá, a política energética brasileira tomou novos rumos, com mudanças decisivas para a retomada do planejamento do setor e dos investimentos necessários na expansão da geração e transmissão, através de parcerias entre empresas estatais federais e privadas.

O aumento da capacidade de geração principalmente na região norte, agora interligada com redes de transmissão em todo o país, inverteu a lógica tucana. Entre 2001 e 2013, o consumo de energia cresceu 50,8% enquanto a capacidade instalada aumentou 72,4%.

É exatamente essa política de investimentos – aliada à utilização das termoelétricas –  que explica porque, apesar da estiagem e do baixo nível dos rios, o Brasil não corre risco de racionamento. Nem hoje, nem amanhã.

Tucanos provocam esvaziamento dos rios: “Nunca mais os reservatórios retornarão aos 100% de capacidade”.  Para entender o gráfico: em março de 1991, fim do verão, os níveis dos reservatórios voltaram aos 100%, situação que se manteve até 1994. A partir daí, com a falta de investimentos e o desmonte para privatização, as reservas foram diminuindo até que, em março de 2001, o nível dos reservatórios atingiram apenas 35% de sua capacidade.

Tucanos provocam esvaziamento dos rios: “Nunca mais os reservatórios retornarão aos 100% de capacidade”.
Para entender o gráfico: em março de 1991, fim do verão, os níveis dos reservatórios voltaram aos 100%, situação que se manteve até 1994. A partir daí, com a falta de investimentos e o desmonte para privatização, as reservas foram diminuindo até que, em março de 2001, o nível dos reservatórios atingiram apenas 35% de sua capacidade.

 

 

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